quarta-feira, 9 de julho de 2014

Do relicário alimento


And I'd give up forever to touch you
'Cause I know that you feel me somehow
You're the closest to heaven that I'll ever be
And I don't want to go home right now

Eu beijei cada uma daquelas doze horas que ganhei com você no nosso lugar que por ser de partida e chegada, tinha um quê de permanecência clandestina.
Cada vez que olhava o relógio ou via o tempo passar lá fora, o dia começar a nascer, sentia tudo, sabe? Sentia a dor da consciência de que o destino brinca de ser efêmero, sentia o sangue correr alucinado desejando perseguir deuses mitológicos e pedir pra ser noite até eu morrer e poder morar pra sempre no escuro que já era e seria sem você.
Eu vivi personagens ali, no chão de plantar com dedos e regar com lágrimas. Eu fui cada clássico amor e cada vulgar tragédia. A Ilíada se desenhava, a Divina Comédia de me saber caminhante para longe do Paraíso, os ônibus ou moinhos de vento dragões ou gigantes que me tiravam o sonho quixoteano.
Em doze horas corridas eu morri vinte e quatro vidas para sobrar só a última, o primeiro ano que nascia ali, suas mãos fazendo carinho no meu cabelo, sua voz bradando leões.
Todo o clichê cinematográfico se justificou quando você, com os lábios, me acarinhou pela última vez, segurando forte meu rosto. Meg Ryan me invejaria porque eu finalmente tinha entendido Seth, o seu anjo.
O que é a eternidade quando se tem em doze horas o além disso tudo?
Eu só quero que você saiba quem sou eu: a minha alma reconhece o seu toque.


Ao som de: Iris - Goo Goo Dolls

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Da Boneca Mais Linda



Era uma vez uma Boneca de pano com olhos de mel e coração de botão vermelho preso por linha dourada, firme e forte dentro do peito.
Era uma vez uma Boneca de olhos de vento, que a pequena Ana não sabia como amar mais e então ali estava a melhor amiga, a que ouvia todas as confissões, a que secava com seu algodão macio e tão natural cada lágrima, a que com o abraço confortável de tecido orgânico que cresceu e sobreviveu a muito até chegar ali levava a menina para casa estando em qualquer lugar do Universo grande que às vezes não cabia nos braços dela.
Engana-se quem pensa que só meninas se encantavam por aquela Boneca, aquelas pernas firmes de quem sempre sabia onde iria se mexiam quase tão rápido quanto os dedos e o seu movimento gracioso deixava a todos deslumbrados, porque como podia uma Boneca de Pano tão delicada ter tamanha força de moinho dentro de si? Como cabia ali naqueles traços de princesa o imperativo que já nasce nas pessoas, aquele que ordena sorrindo e faz com que as coisas se cumpram com prazer de ouvir novos sons dos lábios?
Era uma vez uma Boneca de Pano que de curiosa e atenta lia blogs e livros e mentes, e ninguém fazia isso como ela: ler a mente daquela criatura tão afoita de vida que era Ana.
Vez ou outra, mesmo já sendo mulher feita, Ana se permitia sentar e até mesmo ficar em silêncio perto da sua Boneca favorita, sempre linda, sempre com o sorriso mais disposto a ouvir o que quer que fosse, porque estar ali bastava. Sempre bastaria para ela.
E num era uma vez que sempre vai ser, hoje essa Boneca tão especial merece a visita de todas as fada-madrinhas que existem nesse nosso mundo de magia escondida atrás da porta e debaixo da cama, hoje ela merece que todas as estrelas do céu sorriam para ela e façam com que ela se lembre do Pequeno Príncipe, seu amigo de infância e de prateleira. Hoje, nesse cinco de fevereiro que é o dia lindo em que uma Boneca encantada nasceu, ela merece que a felicidade brote em cada esquina, em cada olhar, em cada desejo, em cada abraço. 
Hoje é dia de festa porque os olhos de folha se soltando para voar o mundo estão ficando mais sábios, mais ainda cheios de brilho, de ternura e amor, essas coisas que a idade sabe trazer tão bem.
Tenha o melhor aniversário do Universo, sinta aí o beijo piegas que diz palavras que você prefere não ouvir porque fica com vergonha.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Da cor que você tem



Mudo a cor do quarto mas a vontade que me vem sempre que me deito e fechos os olhos é que seu coração me adormeça no ritmo que só ele sabe bater. É seu cheiro que me guia no mundo das fadas para onde vou quando sonho, vou feito personagem de desenho animado suspirando atrás daquele perfume que você tem por de trás da orelha e que é só seu, cheiro de menino dormido, de amor com conforto de almofada grande e cafuné.
De tudo que já vi de belo nesse mundo sem fim a cor que seus olhos tem quando quase se fecham por excesso de sol ganha por muito do azul sem fim do mar de Angra. É seu marrom de terra nova que planta em mim coragem e eu me abestalho, rio boba e tímida enquanto você se questiona em que cerca foi amarrar seu bode namorando alguém tão cheia de maluquices.
De te amar morreram meus medos mais infantis.
É você quem vem me ensinar sobre sapos e constelações e pedais, é você quem vem por toque singelo declamar amor tão forte que nunca vi palavra dita definir melhor. Quem inventou os termos ditos não teve o prazer de ver sua caladice cheia de cálido afeto me deixando sem saber o que dizer.
Por você aprendi a esperar sem receio porque você me ensinou que não é o vento quem traz de volta, é o peito que acha o caminho dele, vente em que direção ventar.
Faz favor de vir calminho me assustar, me matar de rir com cócegas e fazer todos os outros acreditarem que somos um casal esquisito, um casal que aprendeu a construir a própria história, uma história bonita por demais a ponto de eu parar de ler todas as outras pra viver a nossa, só nossa.
Vem cá que meu mundo é cheio de cor, mas é só você quem me beija pela manhã e me desperta pra ver tudo isso.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Amor é pra quem ama



"A verdade é que relacionamento é coisa de gente altruísta. Gente egoísta não tem vez. Relacionamento é para os mão-aberta. Para os ouvido-aberto. Para os cabeça-aberta. Para os coração-aberto… E é por isso que eu gosto de gente que tem algo para doar. Gente que ama a própria vida. Gente que tem coisa nova a ensinar. Gente que tem história boa para contar. Gente que já aprendeu a se doar."


Então vem alguém dizer que não tem tempo para se apaixonar pelo dia amanhecendo, não tem tempo para enxergar como é bonito quando a chuva cai devagarzinho, que não tempo de reparar que existem pontinhos claros no céu de noite. Já cansei de me relacionar com pessoas que não têm paixões. Ou às vezes tinham, paixões mortas. Um amor da adolescência que não foi vivido por conta de um medo tolo, um sonho de cursar uma faculdade que foi vencido pelo curso que dava mais dinheiro. Uma paixão platônica que ficou na platonice e estacionou. A gente cansa de se empenhar e se doar pra quem tem medo, porque quem tem medo nunca dá o próximo passo. Quem tem medo nunca acende a luz sem antes ter uma mão para segurar e às vezes a gente também precisa que o outro acenda algo por nós. Quando eu me dou, é por inteiro. Aprendi na marra que água morna não serve nem gelo nem pra chá. 
Cansei de gente que chora a vida que passa e permanece, aquele tipo que te joga um balde de água fria quando você amanhece ouvindo passarinhos e por amor e gentileza diz 'bom dia' desejando de verdade que o dia do outro seja iluminado e ouve em retorno algo rude como 'não sei o que tem de bom'. É difícil enxergar o que tem de bom na vida mesmo. É difícil enxergar que você tem dois olhos e que claro, não enxerga porque deve ter tropeçado e em algum momento desaprendeu a erguer os olhos. É muito difícil enxergar que se a sua vida é uma merda a culpa certamente é sua, afinal, a vida é de quem? Tão fácil sentar e dizer que o outro é uma criança, que não tem maturidade para enxergar a vida adulta, que é bobo, é tolo, que vai quebrar a cara por se entregar, por se arriscar. Tão cômodo apontar quando o outro cai e dizer que é por isso que está ali, porque assim se preserva. 
Auto-preservação é diferente de não viver. Não viver é auto-destruição, afinal de contas, para o que mesmo viemos? Eu não vim pra ser planta. Eu sequer sirvo para encher o planeta de oxigênio! Que eu viva então porque as histórias que eu vou contar ninguém poderá escrever por mim. Que os amores que se forem da minha vida escolham ir por erros que eu cometi, não pela falta de ação da minha parte. Que quando eu calar seja por já ter dito tudo que era preciso, não por ter engolido os termos de tanto medo. Que quando eu amar eu vá ao céu e ao chão, se for esse o caminho, mas que eu entenda, sempre, que as lições que me são destinadas eu só vou aprender se me dispor. 
Eu sou a boba, a criança que ama fácil, a que enxerga beleza até mesmo no pardal. E sabe, de hoje em diante, quero relações com gente assim, que saiba rir dos próprios erros, que role no chão sem falsos pudores, que não estrague os sorrisos alheios por não saber sorrir naquele momento. Gente que não vai guardar a melhor louça para a ocasião certa, que vai pegar um ônibus, um trem, um avião ou cometa para se aproximar. Gente que vai dizer e vai mostrar que me ama sem medo de que eu fique piegas, ser piegas é sinal que eu sinto algo, você sente? 
Quero perto de mim gente que acrescente, que me contamine com uma paixão nova e que tenha brilho de olhos ao me ensinar. Nunca disse que queria alguém perfeito, mas que seus defeitos sejam seus e que você não os mascare para em uma última conversa fria dizer que eu estraguei tudo. Quero gente de verdade, que saiba que comunicação transcende rede social, que um abraço é bem diferente de uma figurinha de whatsapp, que entenda que ser amigo não é concordar sempre, mas é no mínimo ser gentil. Gente que esteja comigo porque quer estar. Que seja inteiro, porque metade de algo não me serve nem de enfeite.


(Fragmento entre aspas desse texto aqui, ao som de Amor é pra quem ama - Lenine)
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