segunda-feira, 16 de maio de 2011

Smile


"Mesmo triste eu estava feliz"

Algumas vezes o mundo vai girar estranho e causar a sensação de que o chão é uma ideia enganosa. Seja mais forte que isso.
Você vai ter vontade de gritar ao mundo que tem medo e que não quer mais acordar no meio da noite sem ter uma mão segurando a sua. Respire fundo.
Virão dias sem chuva ou Sol ou vento e seus olhos estarão vagando em lugares distantes ou próximos, você não saberá identificar. Não feche os olhos, mesmo assim.
Por dias você vai desejar tanto um abraço que seu corpo doerá a falta dele. Não peça, abraço não é coisa que se peça.
Você vai querer chorar, sangrar e morrer. Mas nada disso acontecerá.
Porque você não é mais uma menina, não tem mais dez anos e não tem trinta ainda, precisa aprender a conviver com dias bons e ruins, com proximidade e distância.
Sempre disseram que o complicado estava em nós, e nunca mentiram.
A felicidade não está ali fora, mas se você fechar o quarto, a janela, a alma, ela não vai chamar por você, talvez ela não se lembre aquele apelido que você gosta de ser chamada, talvez você esteja cavando tanto aí dentro que o buraco vai só crescer.
Talvez tudo que você realmente precise é de um pouco de vazio.
Porque é o estado em que as coisas estão mesmo antes de se encherem novamente.
E você dirá que está tudo bem e se deixará acreditar.
Uma hora as coisas voltam para a órbita comum e as canções serão as mesmas, sem entrelinhas dolorosas.

(Ao som de: Ainda Lembro - Marisa Monte)




terça-feira, 3 de maio de 2011

Pequenos fragmentos de luz





Ela tinha mania de fazer pedidos, mas nem de perto ela sonhou com algo assim.
E de repente não havia o que escrever porque nenhuma palavra ia traduzir tanta coisa linda.
Ele sabia o que o silêncio dizia. Bastava a ela então calar e dizer tudo que só os dois compreendiam.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Pra aquecer



"Querido,
Você provavelmente está rindo o seu sorriso mais doce ao ver o meu embrulho chegar, em algum lugar aí dentro você deve ter previsto que cedo ou tarde eu enviaria meu coração dentro de uma caixa, já que a chave você julgou sempre pertencer.
Por dias eu quis arrancar o peito e te enviar sim, depois veio a raiva e tivesse eu contatos terroristas um pó estranho chegaria pelo correio.
Mas passou o temporal e veio o vento com seu cheiro sabe? Maldito perfume esse seu que não há banho que afaste.
Então por favor, para começar, desfaça o sorriso, não te mando boas novas, sinto muito. Não são boas e nem novas, são apenas notícias de uma vida que vai seguindo em frente. Aqui e ali tropeço com suas roupas jogadas no sofá, sua toalha sobre a cama e a sua mania de apertar a pasta de dente no meio. Eu te persigo na memória e te expulso na vida real, coisa insana.
É que não dá pra te querer pra sempre, não com você aí, sem saber ao certo o que fazer. Não dá pra deixar a janela aberta todas as noites esperando e confiando que uma hora você vai se tocar da minha ausência, se tocar da sua ausência e me trazer de volta o que me falta. Maio vem aí amor e está esfriando aqui, preciso fechar as portas que te esperam.
Foi sua opção, não a minha, mas que bem que lhe quero aqui dentro!
Sabe aquela coisinha da gente passar a tarde de mãos dadas olhando para as árvores balançando suas folhas e dizendo que com a gente ia ser tudo diferente, é.
É diferente porque as pessoas dizem que a gente acabou, mas eu me lembro de você me deixar sorrindo com um beijo na testa e ir-se indo. Gerúndio não aceita ponto final, é contínuo e a gente ainda vai construir alguma coisa, sei que vai.
E mando então madeira. 
Sou uma tolinha amor, mas eu sei que não há calor aí também. Sei que o frio que faz nos meus pés não são suas meias que vão alterar.
Mando matéria-prima da fogueira que preciso que te aqueça, imagine que fui até a árvore que era nossa paisagem distante e pedi permissão para arrancar alguns galhos. Expliquei que era causa justíssima amor. Ela deixou.
Lembrei você lendo Clarice e me dizendo que me amava do seu jeito de apanhar gravetos.
Pega a caixa e sente, tem fogo morto esperando nascer aí. Faz favor de ligar.
Faz favor de colocar aí no seu peito murcho que você está tentando fingir de cheio, deixa aquecer e colorir seu rosto, deixa avivar os olhos e quando estiver queimando tudo, vem pra mim.
Imagine a confusão pra eu me convencer que não enlouquecera de vez ao te enviar pedacinhos de pau, insistia que era o jeito, não há que se fazer quando o outro insiste em comer terra pra esquecer que já foi mais que um.
Agora amor, aquele sorriso do início, quando você colocou os ouvidos no embrulho e tentou ouvir um turu-turo desafinado, volte com ele.
Razão não queria lhe dar, mas é sua a chave.
E é seu o fogo.
Junte tudo com carinho e me traga uma fogueira linda.
Faz favor amor de vir logo que o fogo é grande e pode queimar tudo se você não dividir.
Tenha medo não que está escuro, mas a claridade vem contigo, e se a janela estiver fechada incendeie que acordar em meio ao fogo nosso vai ser no mínimo maravilhoso.


Com carinho de um coração teimoso,
Beijo,
Tay.



(Texto escrito para a edição cartas do Projeto Bloínquês)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

De pano e chumbo




"Chega pra envolver
Envolver querer"


Era uma vez uma boneca de pano e um soldadinho de chumbo.
Ela tinha no peito costurado um coração-botão firme e decidido. Ele tinha nas pernas a força do metal trabalhado. Mas tinham que se encontrar pra distrair certezas porque uma vida toda feita antes da gente nascer não é tão bela quanto uma história inventada aos poucos, palavra por palavra.
Dele veio aquele encanto pela alma bailarina que ela tinha, o olhar desenhado que prometia tanta coisa. É que ela sorria, ele dizia. É que ele calava, ela não entendia.
Sem ensaios ou frases prontas, mas cheio de um medo que não é comum em soldados ele tentara uma aproximação, mas não haviam planos e mapas para se achegar ao território da boneca de tecido e alma leve.
Por palavra não fora, por receio bem menos, cautelosamente ele ia desejoso de que a paciência vencesse o receio, teimosia ou o nome que dessem.
E ela com aquele sorriso tão delicado enxergava a aproximação sem entender o burburinho interno por ver o desajeito de um soldadinho.
Ela queria que ele conseguisse, no fundo e no meio de um monte de algodão ela queria que ele a tocasse para que o tecido se misturasse por alguns instantes com o bronze.
E então, da forma que só quem acredita em contos de fadas entende, em uma noite comum a prateleira ficou pequena pra grandeza de um toque. De um abraço. 
Do que veio e fez a história.
Ela sorriu aquele sorriso de boneca de pano.
E ele teve a certeza típica dos soldadinhos de chumbo.
Junção poderosa que fizera lá longe estrelas no céu, porque não era só a força e a delicadeza que abraçadas perfumavam o mundo.
Era um carinho que agora era parte dos dois e tornara o algodão mais macio, o bronze mais brilhante.
Ele adorava perguntas. Ela vivia de questões.
E sem respostas mesmo quem sabe conseguiam ir em frente, mãos dadas.
É que tinham uma vontade de ser mais lá dentro deles e não sabiam a força que essa vontade tinha.
E quando lá na frente fossem contar a história de dois personagens tão atípicos as pessoas se lembrariam de como é mágico o jeito dos contos se tornarem reais.
O jeito que o encanto acha para acontecer em corações-botões e de se fazer agir em pernas tortas de chumbo.
Era uma vez uma história que começava a ser escrita.


(Ao som encantado de: Tema de Amor - Marisa Monte)
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