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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Do melhor feito


"In my place, in my place
(em meu lugar, em meu lugar)
Were lines that I couldn't change
(estavam linhas que eu não podia mudar)
I was lost, oh yeah
(eu estava perdida, ah sim) 
Crossed lines I shouldn't have crossed
(cruzei linhas que eu não deveria ter cruzado) 
I was lost, oh yeah
(eu estava perdida, ah sim) 
Sing it please, please, please
(cante por favor, por favor, por favor) 
Come back and sing to me"
(volte e cante para mim)


Existem dentro de todos os baús que escondo dentro de mim pedaços de você. Existe o cheiro curtinho que vinha do seu pé balançando e atrapalhando a entrada de luz pela janela. Existem fios de cabelo preto ondulado que crescem em meio aos cabelos brancos que hoje me assolam.
Eu me lembro da primeira vez que você esteve aqui, nos meus braços, eu me lembro da tonalidade acinzentada que seus olhos tinham e de como eu tive medo de um dia esquecer tudo isso, como eu tive medo de que você não fosse forte o suficiente para armazenar meu cheiro, minha digital em você.
Fiz tantas escolhas nesse mundo e o passaporte carimbado é marca delas, de todos os idiomas que aprendi durante todos esses dezesseis anos a sua língua é a que eu mais queria saber falar.
Eu te contaria a minha história, a primeira história que você ouviria vinda dos meus lábios, nesse som da minha voz que cantou o amor pra você quando ainda era parte de algo em mim.
Não haveriam princesas nem bruxas nem finais felizes de contos de fadas, minha história traria uma menina ingênua apaixonada pelo mundo e por um homem, ela te faria viajar por um inverno gélido em ruas tristes, uma barriga imensa e a certeza de que metade da vida do universo estava ali dentro dela. Eu poderia te dizer todos os detalhes de todas as palavras que já pronunciei, mas minha linda, eu ficaria te devendo como foi dizer adeus. Eu nunca entendi como fui capaz, faltou ar, faltou luz, faltou coragem. E então você não era mais que um pingente pendurado no meu colar, você não era mais que uma motivação para tudo.
Hoje faz tanto tempo que parti que não sei mais como voltar. Todos os lugares por onde passei durante esses dezesseis anos me trouxeram para essa esquina de sempre, a que nunca esqueci.
E agora que eu sei tudo sobre você, sei dos amigos que tem, dos amores que sonha, sei dos filmes que te fizeram sorrir de um jeito que eu nunca vi, sei dos seus medos bobos de adolescente e tenho uma vontade inumana de te proteger, sei que te contaram a história do Pequeno Príncipe todos os dias antes de dormir como haviam me prometido e sei que você é linda e jovem e que talvez não haja espaço aí para alguém que desde o início te quis todo o bem do mundo e por isso preferiu te deixar, hoje, quando eu te ligar cantando aquela velha canção, quando você estiver com os olhos distantes esperando os amigos para a escola e seu telefone tocar com um número desconhecido insistindo em te trazer de volta do mundo que você sempre vai enquanto espera, quando você ouvir a minha voz e a minha respiração falar por mim tudo que eu não sei se terei forças para dizer, por favor, por favor, não me julgue. Por favor.
Não posso pedir para me amar, não posso pedir para voltar depois de tanto tempo e ter direito a fazer parte da sua vida, mas eu posso te pedir para me deixar cantar como eu fazia quando você dentro de mim estava com soluços.
Talvez aquela velha canção te explique quase umbilicalmente o quanto eu te amei, desde sempre.
Desde sempre.


(Ao som de: Tant Pis - Joyce Jonathan e Aquela Velha Canção - Marisa Monte)
[Texto para o Bloínquês]

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Da única certeza da vida



I was just guessing at numbers and figures
Pulling the puzzles apart
Questions of science, science and progress
Don't speak as loud as my heart
And tell me you love me, Come back and haunt me
Oh when I rush to the start



Último parágrafo.
Ponto final. Sem sinal de reticências alguém se aproxima e toca a mão gelada, apática. Houvera vida ali, não há mais. 
O ofício termina. Só o dia parece não ter fim. Faz calor, você está morta e faz calor. É setembro, as flores estão começando a aparecer, o céu tem aquele tom de azul que você gosta tanto e que sonhava que teria o quarto dos nossos filhos. 
É setembro e você está morta. 
As flores estão ao seu lado, há flores em tantos lugares e eu só queria que você estivesse aqui e risse do quão ridículo parece a vida agora.
Alguém se aproxima e pergunta a mesma coisa, outra vez, toda hora. Eu não quero café, não quero descansar, não quero um abraço, não quero saber o que aconteceu com o dono do carro, não quero ter que recuperar os pedaços da bicicleta dela, não quero beber...  Eu não sei mais beber porque você pedia que eu fosse uma boa pessoa e eu adorava o modo como você sorria, como você sorria e jogava um pouco o pescoço para trás e franzia às vezes ruguinhas que nasciam no meio das duas sobrancelhas.
Meus olhos não aguenta mais, meus braços pesam, preciso de um café, mas andar significa mais pessoas. Mais abraços. Mais pêsames. E já pesa o mundo, será que você entende?
Queria jogar fora tudo que havia dento porque talvez a dor vá embora assim. Quero esmagar a cabeça porque não faz mais sentido, nada mais faz sentido. Tantos cálculos, tantos planos, tantos sonhos, tanta vida e nada mais tinha sentido. De repente eu não queria mais nada, não sei mais nada, não espero mais nada. 
Você morreu e de repente a sensação que eu tenho é que agora, agora com lágrimas entupindo tudo e mesmo assim não rolando, agora eu não tenho mais nada.
Alguém chama meu nome e eu sei que preciso me despedir, mas não quero. Você foi embora. Crueldade sem fim.
Você foi embora e não haverá mais o Sol batendo no seu rosto de propósito porque eu deixei a cortina aberta só para ver bobo o modo como seu cabelo brilha de manhã. Você foi embora e nunca mais o chuveiro vai gotejar por horas porque você não fechou direito. 
Você foi embora, mas eu nunca disse adeus.
Seria ridículo se todos percebessem que eu te amo bem mais do que sempre suportei pensar amar alguém? Seria absurdo se todo mundo entendesse finalmente que a vida vai continuar, mas parou aqui porque cadê você, cadê você reclamando que veio de salto mas pedindo para poder ir embora descalça? Cadê você porque eu preciso dizer que eu te amo o mundo inteiro. Eu te amo bem mais do que eu disse ontem quando você estava se despedindo para trabalhar, eu te amo bem mais do que eu disse todos esses anos, eu te amo e não quero que você vá. Por favor, acorde.
Todos esperam que eu diga alguma coisa, mas eu não posso tentar, você entende? Sei que você riria se eu dissesse alguma coisa errada e o fantasma do som do seu sorriso faz com que eu tenha novamente aquela vontade de jogar tudo ao chão e dizer coisas cruéis.
Apenas posso olhar para você. Como acreditar que será a última vez? Não dá para decorar tudo.
Último parágrafo, alguém se aproxima para cobrir de madeira seu rosto, não posso olhar, não posso impedir, não posso gritar com todos e mandar para lugares inabitados. Não posso roubar você para mim. Alguém pergunta sobre a fachada que você estava concluindo, espera que eu tenha respostas. Eu apenas te olho e você não está mais aqui. Talvez eu nunca mais tenha resposta para nada. Talvez agora eu feche o livro, não importa se a minha história ainda está no meio, a sua acabou.


(Ao som de The Scientist - Coldplay e Eu Nunca Disse Adeus - Capital Inicial)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Do alívio imediato

Amor,
Chove como se fosse possível varrer a terra e plantar novamente tudo de novo, ou é só um desejo forte do meu peito que haja espaço para se olhar com carinho o velho pintado de novo?
Você acabou de sair por aquela porta e eu não sei como consegui me manter presa, talvez eu seja parte da decoração agora, talvez eu seja parte desse apartamento vazio que tanto fiz questão de conquistar, parte dessa liberdade imposta que implica não ter você.
Sei querer, sabe... Eu sempre soube querer, nunca fui o tipo de pessoa que não sabe o que espera da vida, adolescente que era no interior já sabia que uma hora chegaria aqui. Construi com murros em pontas de facas cicatrizes que me afastariam de dores futuras. Eu tinha desistido de ser de outra pessoa fazia tempo, eu tinha colocado no peito a convicção fajuta de que seria melhor inteira, sozinha, focada.
Mas você apareceu e me tirou o chão desde o começo, eu que sempre precisara da certeza de pés firmados, que sepmre tivera pavor de altura. Você veio como um presente de grego da cidade tão nova, como uma preparação para os dilemas que seriam tão meus nos próximos meses.
Lembro agora aquele primeiro olhar na praia, lembro você me dizendo que sabia que eu não era daqui e que sabia também que eu ficaria. Clichêzinho de quem quer conquistar. E logo eu, eu tão sabida das coisas desse mundo, eu tão ciente do futuro brilhante, eu me deixei cair naquele olhar fundo, naquela barba malfeita que em outras ocasiões critiquei tanto. Eu quis pertencer ao mundo porque você estava nele.
Agora você bateu a porta e não bate mais nada dentro de mim, é como se o sangue estivesse desistido de ser bombeado e tivesse resolvido ir brincar com aquelas borboletas idiotas que eu acreditava ser invenção de poetas românticos.
Eu quero você.
Eu quero a ponto de doerem os braços pela falta bruta que consome o corpo. Eu quero olhar para todas as outras mulheres que te enxergam e ter a certeza que nenhuma delas será tão próxima quanto eu. Quero abraçar suas costas e saber que o espaço existente ali é feito sob medida para o descanso do meu pensamento. Eu gostaria tanto que nada disso soasse incoerente como sei que está.
Porque veja bem, eu expulsei você, mas eu quero que você volte. Preciso que você me diga que sou boba e infantil no alto dos meus vinte e poucos, que preciso crescer e que você vai me puxar pelas mãos ou pelas orelhas até que eu entenda que fiz tudo e vim parar onde era preciso, em você.
Volte amor, volte e diga que meu aniversário foi ótimo mas que o presente verdadeiro foi estar após a festa ali, sofás distantes e eu só pensando em quanto seria preciso me aproximar até você ter a audácia de tentar me beijar.
Eu preciso que você me segure os braços, que use a força e os olhos, que me faça mergulhar e que me beije. Eu preciso que você me tire o ar e que me solte no meio do nada pra bater asas, tenho pavor de altura mas é você quem vai me esperar, peito aberto lá em baixo.
Sabe, não sei ser romântica, me sinto tola. Terrivelmente tola por ter impedido o que aconteceu milhares de vezes dentro do meu pensamento. Tantas e tantas vezes fantasiei que você vinha no meio da noite e que roçava a barba no meu pescoço, que me matava de raiva e por fim, por fim sabe, como que me presenteando por ter sido o tempo todo uma menina boa tentando ser má, você me sopraria os olhos, passaria os dedos firmes pela ponta dos meus lábios e me beijaria.
Pareço uma adolescente, eu sei.
Por favor, por favor diga que tentará novamente, que voltará empurrando porta abaixo e me impedido de proferir tolices, diga que sou sua menina e que me fará confissões porque não sei não ser mais que isso agora. Ou não diga nada, só venha.
Quebre os muros, apague as luzes, desligue o mundo.
Engenheiros sussurram ali do som: 'nem caiu a ficha e já caiu a ligação'. Não deixe tocar muito, não me deixe tentar em vão. Não me perca, não me deixe perder nada.
Agora, só por hoje amor, faça com que eu me arrependa de ter sido egoísta e não ter imaginado desde o princípio que você seria o erro mais acertado da minha vida faz-de-conta que é perfeita.
Volte. Venha.

(Ao som de: Arms - Christina Perry)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Do ar que falta


But I'm not too sure
Mas eu não tenho muita certeza
How I'm supposed to feel
Como eu devo me sentir
Or what I'm supposed to say
Ou o que eu devo dizer
But I'm not, not sure
Mas eu não tenho, não tenho certeza


As palavras saem quase sem querer, ouvidos atentos escutam aquele 'eu estava errado, o tempo todo eu estava errado'. As mãos dele passeiam pelos cabelos dela, ela não sabe o que dizer, não consegue compreender como depois de tanto tempo ainda existe alguma coisa ali capaz de reconhecer a digital dele, capaz de fazer o sangue acelerar tão compulsivamente, como se em breve alguma explosão ocorresse ou o mundo apenas se tornasse um lugar seguro, os braços dele estavam de volta.
Não era como ela imaginara, não havia a luz do Sol para dar um ar romântico, não havia a chuva para fazer com que se parecesse cena de filme adorado, onde estava a Lua dos casais? O cenário de repente deixara de ter qualquer influência na história e ela adorava histórias descritivas cheias de detalhes sobre cores e aromas e os lábios dele que vinham, e os olhos. E as mãos.
Onde estava o coração dela nesse instante? Certamente ele saíra, pedira conta da tarefa de bombear todo aquele sangue, não era possível tarefa assim, não para um coração desajeitado e com tendências ao desespero.
As mãos dele ainda brincavam com as mexas recém nascidas próximas à orelha e ela não sabia não dizer não. Não conseguia conceptualizar qualquer frase que fosse, o tempo parecia não passar e de algum lugar vinha um cheiro de folha sendo pisada em quintal, de grama molhada e de tudo que fora lindo e ela apagara na dor de não ser mais.
Ele estava errado. Ela estava certa então? Isso significava que toda a dor era culpa dela, culpa de uma certeza que ela insistira para ter e então valia o que o fato de que ele estava ali agora, ele estava tocando sua pele novamente, ele estava com os olhos vidrados e ela quase conseguia contar os segundos da respiração tão próxima aos ouvidos.
As mãos doíam. As pernas pesavam um oceano inteiro e lá dentro icebergs começavam a degelar.
E então ela fechou os olhos. Precisava do beijo. Precisara antes da certeza, não mais. Coisa mais estranha de se sentir essa vontade alucinada de ter nas mãos um pedaço de raio. Trovejava a alma.
Veio forte, tempo demais esperando para ser acontecido. Ela não conseguia se concentrar para respirar e o ar desistira de sair de seus pulmões. Tudo nela queria ser parte do que estava sendo tão perfeito. Tudo nele era vontade de estar com ela. Tão ela, tão certa, tão de certa forma feita sob medida para ele.
Ele tocava seu rosto, ela respirava humildemente tentando arranjar substituto decente para o coração já na fila do seguro desemprego.
E o beijo terminou.
E os olhos se abriram.
Não fora sonho, não fora medo, não fora. Os tempos verbais passados não seriam mais precisos, o presente estava de volta.


(Ao som de Silverchair - Miss You Love e As Palavras - Vanessa da Mata)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Do que não brilha mas é Sol em mim


Olá Amor,
Às vezes eu queria tanto que houvessem histórias maravilhosas para te contar. Aquelas coisas grandiosas de quando a gente ficava por horas ou minutos ou eternidades sentados rindo de quanto éramos ingênuos. Você ainda tem aquele jeito de espremer os olhos quando sorri? Eu ainda tenho a risada incompleta, aquele momento em que pego ar e nada mais sai. As coisas andam meio tímidas dentro de mim, nunca imaginei que isso aconteceria.
Sinto sua falta, não deveria dizer mais isso, quantas vezes foram necessárias para que eu parasse de reparar nossa foto e eu aqui novamente espalhando a verdade que me fiz calar. Não queria sentir nada, acredita? Mas não sentir implicaria não ter experimentado tanta coisa boa com você, então é mais uma questão incoerente dentro de mim, você não tem ideia de quantas já são.
Quando eu era criança e olhava para o céu lá da roça nos dias de férias e acabava sempre confundindo estrelas e vaga lumes. Coisa besta que só criança sabe fazer. Eu pensei amor, eu juro que pensei que eu tinha aprendido a diferenciar tudo que era celeste. Milhares de vezes eu fiz pedidos para os bichinhos piscantes, nem tudo que reluz é ouro, já dizia o bardo não é? Pois é amor, eu nunca pensei que grande como eu era conseguiria confundir minha estrela. Talvez eu tenha perdido alguma lição importante no caminho de volta pra casa, mas me diz como fui capaz de achar que você era passageiro? Eu vi o quanto você me encantava e no medo insano não quis arriscar, vai ver a luz se apagava fácil.
Bem, cientistas de plantão assumem que nem as estrelas brilham para sempre, mas a verdade é amor que você era muito mais que luz de vaga lume. Eu trocaria todos os desejos realizados por ver você brilhar pra mim outra vez, o seu sorriso de menino bobo, o jeito que eu considerava seus movimentos tentando decorar uma cadência que fizesse sentido. E eu olho para o céu todas as noites, incansáveis noites, ainda que chova. E nada mais brilha.
E sabe, as canções não são mais as mesmas e ainda assim elas me trazem você. O espaço aí é outro e eu ainda queria que você fosse meu a ponto de não conseguir soltar minha mão em dias de frio. Eu ainda te quero tanto que quase dói algum órgão que deveria ser retirado.
Não assumo, faço birra, teimo em vão. É você que eu espero descer as escadas sempre que escuto passos, é seu nome que vibra na mente junto com o celular avisando uma nova mensagem. É só você que eu nunca deveria ter perdido amor.
Quando eu me olho no espelho as perguntas surgem com tanta convicção que eu ainda espero resposta. Espero que alguém me diga que vale a cicatriz fina, espero que meus olhos sejam alegres e sorriam de volta pra mim, eu espero ouvir sussurrado de dentro de mim que a gente vai ter tempo de sobra pra olhar o céu juntos e você, porque é você quem precisa me mostrar o mundo, é você que eu preciso que mostre, você virá e me dirá que estrela brilha muito mais quando está escuro.
Agora está.


(Ao som de Skank - Resposta)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Do que se aprende


"Será que ela é triste?
Será que é contrário?
E se ela só decora o seu papel?"

Eu sempre soube o que seria, mas você me fez querer ser mais. A menina que eu era você fez morrer e longe de matar tudo que fui um dia, aquela primeira morte em um teatro velho de cidade de interior fez brotar passos firmes.
Você merece uma explicação do início. Vamos por partes então.
Num primeiro momento eu te amei de longe, eu imagina figurações em que eu poderia aparecer e você me tomaria pela mão e seríamos felizes para sempre brincando de mudar o cenário. Eu te amei porque você trazia o brilho, você tinha o dom de ser o que quisesse, quem quisesse. Mais tarde eu entendi que na verdade você não era o melhor ilusionista. 
Talvez tenha sido culpa da vida, mas haveria modo de não me encantar? Você sorria e você chegou aqui, bem aqui onde eu estava! Menina que era acreditei que o destino me dava uma força, que ele queria mesmo que eu fosse a sua princesa dos contos. Acreditei que a gente seria um casal famoso, que tapetes vermelhos viriam, que a nossa vida seria exemplo. Eu acreditei que você me salvaria.
Sabe querido, em muitos aspectos você me salvou mesmo, estão aqui as minhas palavras para você, não estão? Você me conheceu o suficiente para saber que não dispenso vocábulo ao vento. Falo porque no fundo seu amor foi a coisa mais próxima de real que vivi durante a interpretação nada boa dessa minha vida. Merecíamos um Oscar.
Ainda perco o foco, como pode ver... Estávamos no teatro, eu e quase todas as meninas daquela cidadezinha. Seria capaz de sentir e identificar cada detalhe de todos os rostos ali, a lembrança dos cabelos desgrenhados de adolescente, o perfume caro guardado para ocasiões mais que especiais e que não era gasto nem para ir à Igreja, a luz que entrava por um vidrilho quebrado e que me permitia enxergar os flocos de poeira daquele lugar velho. E você.
Você e seus olhos de trovão. Nunca disse isso não é? É uma metáfora absurda, por isso sempre te poupei dela. Eu tinha medo dos seus olhos mas era maior a atração. Eu queria ser a direção deles, eu queria que eles fossem mais lentos que a luz e que se demorassem em mim. Que assustadores eram, mas eu sempre sabia que ao notá-los o pior já havia passado.
Leríamos qualquer coisa e você selecionaria a sua favorita, a que ganharia o papel, sua nova parceira de ficção.
Com o destino embaixo do braço eu fui e você se encantou com tudo. Era tanto medo meu que vai ver algo tenha se convertido em trejeito de atriz. Você me quis.
Sinto falta de acreditar. Sinto falta de sair daquele teatro e ter a certeza de que você era o que de melhor havia, não importando carreira ou qualquer outra coisa que viesse.
Fomos um sucesso. Meu amor por você era tão forte que eu seria capaz de interpretar que éramos felizes, quem sabe mostrando aos outros conseguiria me convencer? E o pior é saber que eu poderia ter mentido por muito mais tempo, não fosse você mudar todos os planos. Não fosse você ir até outro teatro, em outra cidade, depois de todos esses anos, depois de todos os sorrisos que plantei por você, você encontrou outra menina. E depois outra. E sei que teria até mais outra, não fosse seu estado agora.
Você vai morrer querido e eu estou aqui ao seu lado. Não foi de mentira. Não foi por fama, por vontade de estar na frente com você. Foi porque eu quis o tempo todo que você enxergasse que por trás da atriz havia alguém. Eu estava ali. E estou agora.
E justo nesse momento eu não vejo a hora de lhe dizer aquilo tudo que eu decorei na primeira vez que você parando sobre mim os olhos tão meus me entregou um script: 'a melhor coisa que se pode aprender é amar, e em troca amado ser'.
Por favor, não morra, preciso te ensinar isso ainda.
(Ao som de Beatriz - Ana Carolina e Ando Meio Desligado - Pato Fu)
[Na foto a atriz Nicole Kidman. O texto acabou sendo uma carta dela direcionada ao ex-marido, Tom Cruise]

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Do que o vento não leva


Amor,
Talvez eu devesse começar dizendo que sempre admirara mais do que o normal o mar, a sua inconstância previsível. É um aspecto bem peculiar, não acha? Todos sabemos que é arriscado, qualquer um entende o movimento contínuo que molha e recua, mas mesmo assim a gente se deixa encantar. Se deixa parar e olhar, ainda que saiba que é impossível retê-lo, criamos castelos, enchemos poços com a água e quando menos esperamos, lá se foi tudo.
Hoje eu não sei o que te dizer, porque sinceramente eu queria não te amar, eu queria não ter sonhado com seu retorno durante cada noite e dia desses anos todos, eu quis tanto me afogar mil vezes e em cada uma delas era a sua presença que me resgatava. Em todas as lembranças você me sorria e dizia que nós agimos certo sem querer. Eu queria estar contigo. Eu queria tanto ter tido a voz para dizer que não me importava com a incerteza do futuro, eu tinha certeza que era você.
E você, tão certo, tão meu, tão montanha que sempre está ali, veio. Você veio e eu que sou só mar não soube o que fazer. Mais uma vez permiti que você mergulhasse, bem mais que isso, eu desejei muito que você realizasse todos os sonhos que esperaram sua volta, eu te trouxe para perto e nesse momento, me diz, aonde está você agora além daqui dentro de mim? Dentro desse mar revolto e sem oceano para se desaguar?
Então eu me perco porque a incoerência dentro de mim é sem fim. Eu te amei com todo o amor que fui capaz, um amor que eu pensei ter matado anos antes e que tive que encarar forte e vivo, apertando o peito e diminuindo o espaço de entrada de ar para os pulmões. Mas eu não sei me entregar, não sei pular, não sei não ser mar. E você foi embora novamente porque eu não soube te pedir para ficar e muito menos segurar sua mão e ir com você.
Sabe Miguel, durante todos esses anos eu te escrevi, eu vinha até aqui porque achava que perto do mar estava mais perto de você. Eu sentava nas pedras, deixava o vento me atordoar e a dor ia embora, devagar. Não vai ser mais assim. Eu deixo a onda me acertar mas nenhuma dor vai embora agora.
Talvez eu tenha crescido anos nos dias que você esteve aqui, talvez a força do amor que nós vivemos foi tamanha que eu tenha me acovardado mais ainda, talvez eu não fosse o certo. Queria a certeza de que foi só o tempo que errou, que nossas escolhas foram mesmo as melhores, ao menos as possíveis. Mas sei que a culpa é minha.
Vai ser difícil sem você, sem a esperança que eu fingi calar todo esse tempo de que uma hora ou outra você bateria na porta da minha casa, escalaria a torre imaginária, lutaria com qualquer dragão para me resgatar. 
É a última vez que eu te escrevo e quero que você fique com a lembrança de quando olhávamos juntos na mesma direção, sabe amor, você me fez feliz como eu jamais seria. Você me fez querer ser qualquer coisa para ficar ao seu lado. Você me fez querer ser só sua.
A vida continua e se entregar é uma bobagem, apenas me perdoe por ter sido covarde a ponto de renunciar ao nosso amor, nosso sonho e nossa história.
O plano era ficarmos bem, um dia quem sabe eu esteja pronta para concretizar planos.
Um dia quem sabe eu me faça mais forte, a coragem roube a cena e ocupe o lugar da dor de saber que fui eu quem estragou tudo, quem sabe eu vá atrás de você e te diga que nunca tive coragem de mandar sequer uma carta, mas não houve momento em que não esperasse um aceno seu de volta. Um dia quem sabe eu te ame como você merece, por inteiro, sem medo, sem covardia, sem fuga.
Por enquanto eu ainda não consigo passar por cima do medo, ainda que você mereça tanto, ainda que eu saiba que é mesmo amor o que eu sinto. Ainda que eu saiba que talvez não haja mais tempo depois.
Dizem que o mar tem dessas coisas, quando ama algo demais acaba destruindo, levando para o fundo, estou te devolvendo à praia antes que faça estrago pior.

Lívia.

(Ao som de Vento no Litoral - Legião Urbana)

[Algum tempo atrás postei cartas entre esses dois personagens, Lívia e Miguel. São os protagonistas do meu romance, 'Meus Pijamas em Paris?!'. Nenhuma delas está no livro, essa inclusive pode ser considerada um final alternativo para a história.]


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Da minha melhor metade


Porque quando eu era menina acreditava em alma gêmea. Olhava o céu e fazia pedidos para estrelas, eu imaginava que um dia encontraria alguém que me coubesse perfeitamente, que tivesse os defeitos opostos para me completar e que juntos formaríamos uma combinação explosiva e mágica.
E quando eu era crianças acreditava em juntos e felizes para sempre dentro de um conto de fadas.
Só que as pessoas crescem e queira ou não, acabam mudando os sonhos de lugar na prateleira e a nova ordem das coisas coloca os amores cheios de expectativas lá atrás das coisas bobas e bonecas antigas com cabelo repicado pelas próprias mãos.
Hoje eu vejo que eu fui ingênua e idiota, não haveria modo de me completar. Não haverá nunca uma metade da laranja, um par perfeito, defeitos opostos para amenizar os meus.
Não nasce amor de coisas tão banais. Não nasce amor se você não for inteiro. E eu vejo que por hora tenho medo de que a gente não dê certo, deixo a insegurança me domar e me sinto novamente aquela criança, desejosa da certeza de um felizes eternamente, mas amor, eu sei que te amo porque há um pouco de mim em você inteiro.
Não é por partes que nos fazemos juntos, somos um mais um, não apenas um. Eu vejo um pouco da menina sonhadora nos seus olhos de menino faminto por viver, vejo as inseguranças que tenho quando você aperta firme minha mão ao narrar histórias que ainda viveremos, mergulhos no Pacífico e escaladas em solo de vulcões.
Eu vejo meus medos e desejos passeando pelas rugas que se formam nos cantos do sorriso e dos olhos quando você os espreita para analisar algo.
E melhor que tudo, eu vejo o meu amor, o que eu sinto, o que me faz percorrer qualquer distância para estar com você, passar por cima de cada bobeira para me perder em você, eu vejo o meu amor quando você me abraça, quando você toca com a ponta dos dedos minha orelha para afastar uma mexa de cabelo teimosa e metida a independente, quando você sussurra para o mundo inteiro dentro do meu ouvido, baixinho, que me ama.
Porque você ama o meu amor. Ou eu amo o seu.
O fato é que inteiros como somos, somos partes um do outro.
E sabe, a minha melhor parte, ela é sua. Pode apostar.

(Ao som de If You're Gone - Matchbox Twenty)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Do que não é permitido dizer


Nobody said it was easy
Ninguém disse que era fácil
It's such a shame for us to part
É mesmo uma pena nós nos separamos
Nobody said it was easy
Ninguém disse que era fácil
No one ever said it would be this hard
Ninguém nunca disse que seria tão difícil

Era a primeira vez que saíamos desde que papai havia descoberto que eu morreria da mesma maneira que ela, aquele assunto proibido nas conversas paralelas durante o jantar quando a madrasta desviava os olhos e meu irmão apenas se perdia olhando o prato sobre a mesa.
Mamãe morrera sem que eu tivesse a chance de aprender com ela como homens conseguiam arrancar sorrisos feito os que ela tinha. Ainda que eu soubesse apenas de fotos, era como se cada vez que me pegava olhando as polaroides da época em que ela era uma moça de fitas coloridas nos cabelos vermelhos, como se a cada vez que eu reavivasse a memória pudesse ouvir o som de sua risada, sem nem ao menos tê-lo conhecido.
Tinha o coração frágil, diferente dos olhos que todos diziam que eu não herdara. Eu nascera ao meu pai, homem robusto, pernas longas e face fechada. Os cabelos tão lindos tinham morrido com ela, não havia espaço para o ruivo na negritude que pairava sobre os meus olhos, caindo naquele corte de cabelo infantil que nos faz parecer ter uma cuia cobrindo parte das orelhas.
Mas tínhamos uma família nova, uma quase mãe que sempre dedicara cuidado com meus gostos excêntricos e que desde que papai descobrira a herança que me cabia no que de mais perfeito minha mãe tinha só fazia se calar.
Eu viera com o coração dela. Defeituoso de fábrica, pronto para parar de bater com o mínimo suspiro, era um coração preguiçoso ainda que cheio de amor.
E agora estávamos ali, eu e aquele menino de doze anos que eu ganhara de presente por ter sido um bom menino, o meu irmão. O irmão que sempre desorganizava meus discos, o que parecia ter mãos vivas e que eu sempre pensara poder proteger. Talvez ele tivesse que crescer sem mim, eu precisava dizer a ele algumas coisas. Sentados ali éramos tão pequenos diante da imensidão de céu, éramos tudo que papai tinha, dois filhos e um carro e era como se eu não fosse ser parte daquele tudo por tempo suficiente para me despedir. Eu não sabia como lidar com o fato de que hora ou outra soltaria a mão deles. Foi impossível não começar a chorar.
E foi nessa hora que ele pegou minha mão, papai o deixara ali comigo para ir buscar algo comestível, quando dei por mim já não me importava se eu precisava ensiná-lo que homens não choram fácil, se eu era o exemplo que ele teria para a vida. Eu apenas queria chorar o suficiente por fora como eu já chorara por dentro na esperança boba de que as lágrimas pudessem lavar qualquer mal daquele coração meio falho.
E ele começou a falar, a voz de uma criança que não tem medo de dizer verdades.
- O Natal está bem próximo e eu pedi um presente muito bom para o Papai Noel. Mamãe diz que já sou quase um homem grande e que preciso entender de uma vez por todas que Papai Noel é o vovô e que os presentes são comprados no Walmart, mas você uma vez me disse que se a gente acredita bem forte, a gente pode fazer com que seja verdade, não é mesmo? Eu acreditei bem forte que não doeria quando você me ensinou a andar de bicicleta e eu caí e me machuquei, e doeu. Mas talvez seja porque a gente nunca consegue fazer com que acreditar seja mais forte do que a dor.
Haveria forma de dizer a ele que doeria muito ainda? Que eu precisava acreditar, mas sabia que doeria? Dei um meio sorriso.
- Então eu pedi ao Papai Noel uma caixa mágica como aquela que o papai tem e que faz com que ele arrume todas as coisas que se quebram, uma vez eu vi que ele usou para arrumar o cano da pia que mamãe disse que não tinha mais jeito, e eu também já sei que ele usa ela para remendar as coisas dentro do carro. Eu pedi para o Papai Noel uma caixa mágica e ele vai me dar, eu realmente acredito que sim.
Eu olhava o céu tão fixamente, pensando que Papai Noel poderia existir mesmo, ele não terminara a fala, eu sabia, mas agora ele também chorava.
- E Papai Noel vai me trazer a caixa... - agora ele me encarava como o homem que eu precisava saber que ele seria sem mim - e eu tentarei consertar você.
Procurei definições para explicar o que um menino de doze anos tinha feito com meu coração defeituoso naquela noite de céu estrelado dentro da gente. Meu irmão não pedira um video-game ao Papai Noel, ele não queria uma bicicleta só para ele, não queria uma viagem de férias. Ele só queria uma caixa com ferramentas como a que meu pai usava para desempenar canos e fazer consertos no motor velho do carro. Ele queria a chance de me salvar, não um coração novo, mas a chance de que ele pudesse fazer algo por mim.
E eu no auto do meu egoísmo achando que não poderia partir porque devia ensinar coisas a esse menino.
Papai Noel não trouxe uma caixa de ferramentas para ele, e infelizmente também não me trouxe um coração novo. Mas talvez eu já tivesse ganho o melhor presente da minha vida naquela noite, eu descobri que eu precisava viver muito ainda para aprender com ele, eu precisava e lutaria por isso todos os dias.
Até um coração com defeitos de fábrica tem conserto.


(Ao som de Coldplay - The Scientist e Fix You)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Do segredo do amor


"Mas isso aqui meu senhor
É uma carta de amor"

Começou por acaso, dizem os escritores que assim se começam os belos romances. Dentro do livro emprestado da biblioteca da escola, capa esfolada e já meio desbotado, história antiga. Dentro de uma história de um amor que não dava certo e que se fazia vingar em morros uivantes estava a sua declaração de amor. Coisa sutil sabe, envelope rabiscado, caneta rosa e eu sabia que ali sim ia me encontrar, eu nessa vontade de dizer ao mundo coisas e guardar dentro de páginas.
A mãe ensinara desde menina que era uma terrível falta de educação violar correspondência alheia, além de ser crime e pecado, mas tinha como resistir a tamanha insistência pulando página por página, como marcando o passo do amor teimoso daqueles donos da história central do livro?
Perdia o foco e pairava imaginando o que poderia haver ali dentro do envelope.
Talvez houvesse um homem que tivesse partido para a guerra e deixado o livro emprestado com uma menina de interior, percebendo ela que ele não voltava colocou na tinta o coração e lacrou dentro do envelope, fechando para sempre o romance.
A imaginação fértil de adolescente viajava em uma carta de uma americana que viera ao Brasil conhecer as belezas de uma praia e vira-se enamorada de um vendedor de picolés que falava sorrindo e tocando.
Quem sabe ainda falasse de um amor que uma menina de quase catorze tinha por seu professor de ciências. Vai ver fosse a mais linda história de amor que já se escrevera, vai ver fosse urgente, seria, toda história de amor era para ontem, amor não sabia esperar calado, aguardando traças dentro de livro antigo. Amor era para ser vivido.
E lido.
Terminado o romance, indo até a biblioteca devolvê-lo, me pegava de tal forma apegada ao pedaço de papel contido dentro do envelope que lágrimas começavam a dançar teimosinhas dentro dos olhos escuros, emburrados pela falta de coragem de romper uma regra imposta sobre o que não lhe pertencia.
Tropeço e quase dou de cara com o chão, a carta ainda em mãos, o livro no meio da rua. Se deixara cair o livro é porque a história ali pairando nas minhas palmas valia a pena ser lida. Eu precisava disso, e se fosse o meu destino ser o pombo correio que levaria a correspondência e mostraria o amor a alguém já sem luz em vida?
Na calçada me joguei ignorando os que passavam, já chorava sem piedade sabendo do pecado cometido por mim rasgando o envelope e lá de dentro em papel dobrado com zelo brotou uma caligrafia firme, quase desenhada.
Suspiros. Era o amor escrito ali, letra por letra.
Meticulosamente abri e li.
E chorei, chorei e sorri. Sequei lágrimas e chorei de novo, tudo isso sentada na beirada pintada de branco da calçada da avenida principal.
Eu era uma menina que descobria o fundamental da vida, que mais poderia querer?
Havia apenas uma frase na carta sem endereço de remetente ou destinatário, que vos transcrevo:
'Se for amor mesmo não haverá regra que impeça de acontecer'.
Eu aprendera a lição mais fundamental sobre o amor amando, pasmem, um envelope e as possibilidades ali contidas. 
O que mais era o amor além disso?

Ao som de Cássia Eller - ECT

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

De tudo que eu queria


'Você me faz bem quando chega perto
Com esse seu sorriso aberto'

Tempos atrás eu apostei que um dia pararia para contar a nossa história. Eu acreditei fortemente que haveria algo nela que encantaria todas as pessoas e faria com que se desejasse ter um amor assim. Hoje, diante de tanta história nossa para ser contada me calo, tento pensar em tudo que já quis dizer e que hoje sinto tão nosso, nosso livro secreto, cheio de rabiscos e desenhos e frases soltas em meio ao amor que a gente escreveu junto.
Às vezes eu quero parar o mundo para estar com você, às vezes eu quero apertar tanto a sua mão a ponto de querer que a minha seja parte dela, às vezes eu choro e entre um suspiro e outro é o seu nome que vem. Mas sempre, sempre, é com você que quero estar. Se eu fosse boa suficiente com estatísticas te garantiria em números que não houve um dia sequer desde aquele primeiro beijo evidente dado tempos antes de ser beijado em que o meu desejo maior não fosse me perder no seu sorriso.
Ainda que eu fosse a maior fã do gênero romântico, eu jamais teria imaginação suficiente para desenhar o que teria sido de mim se pudesse me transformar em outra coisa quando você me sorrisse. Sabe amor, é o modo como os olhos ficam pequenos, o lado direito cria uma covinha que é quase imperceptível e eu me perco por ali.
Você me ama pelos lábios, e é um amor de dentes e língua e tudo que é permitido, não se sabe amar de meio sorriso, amarelado, envergonhado. Você me sorri  por inteiro, sorriso de alma. E eu fico querendo emoldurar no céu o seu sorriso, porque as estrelas que tinham domínio sobre meus olhos nem são do mesmo jeito faz quase sete anos. Porque estando estampado no céu talvez alguém consiga olhar e sentir tudo que sinto, talvez o amor possa inundar a terra vindo de um sorriso seu, como me inunda.
Ou talvez eu possa apenas me perder como Alice no meu País das Maravilhas e morar para sempre ali, dentro do que me faz tão bem.

(Ao som de Luiza Possi - Tudo Certo e Nando Reis - Hoje Mesmo)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Erro de tempo



Amor,
Coisa estranha a nostalgia que toma conta das partículas preguiçosas do meu pensamento em épocas do fim. Eu hoje joguei tanta coisa fora, eu vi o meu passado passar por mim. Lembrei uma menina de cabelos quase loiros deitada em um quintal cheio de folhas pelo chão. Lembrei um sol que fazia os olhos se fecharem e o sorriso se espichar porque era sol de vida. Era uma vez naquela época uma guria que sonhava em plantar estrelas e você caçoava dela porque as estrelas moravam no céu, plantas cresciam no chão.
A gente sempre sente falta do que perdeu, mas por que me abate essa coisa ardente no peito que me faz sentir falta do que sou? É como, amor, se eu me perdesse em cada esquina, como dizia uma música ou um filme, não me lembro. Sabe, como se eu fosse em cada água de chuva, em cada lágrima boba, cada esbarrão ou abraço de amor. E onde eu estou que não me acho?
Não há reclamação, o ano foi lindo. Vieram tormentas porque eu gosto de olhar o céu pedrento e pensar na tempestade que virá. Foi de linha a construção do meu sonho...
Mas chega essa hora e eu fico pensando se poderia ter sido mais. Não me quero pela metade. Tem de ser inteiro porque do contrário perde a intensidade, água morna não vira chá e nem gelo.
Acho que foi pro lixo a consideração de que é preciso agradecer e pedir perdão. Dane-se se hoje eu quero só estar ao seu lado e ficar calada, quero você falante, fazendo mil planos para o ano que virá e me incluindo em cada um deles. Quem se importa se hoje eu queria só um espacinho de tempo perdido para poder ter medo de estar me tornando a realização de um sonho que eu não sei se era o melhor a se sonhar?
Talvez o correto fosse resgatar lá do lixo então o passado, aspirar um pouco e pintar de tinta nova. Futuro velho.
Os outros achariam a maior graça do mundo, mas amor, acho que pra ser feliz preciso aspirar e sentir o cheirinho de naftalina e mofil. Acho que nasci no tempo verbal errado.

(Ao som de Os Paralamas do Sucesso - Tendo a Lua)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Quando breve, para sempre


This could be the end of everything
Isso poderia ser o final de tudo
So why don't we go
Então porque nós não vamos
Somewher only we know?
Para um lugar que só nós conhecemos?

Aquela era a única lembrança que eu tinha e eu não mais conseguia me afastar dela. Havia um bosque, o seu vestido florido colorindo tudo, eu implicava com o modo como você rodopiava em torno das árvores e me permitia ficar tonto ao constatar tanta beleza junto.
Eu amava você como se fosse capaz afastar todo o resto, as árvores dançavam a nossa canção e uma mesa sempre vazia compartilhava conosco a felicidade sem fim que vivíamos.
E então onde estava você e seu vestido? Onde fora parar a canção? Alguém me puxava pela mão e dizia que estava frio e eu estava de pijamas ainda. Mas como eu poderia me afastar de você? Era verão, em breve choveria e eu sei que você ficava ainda mais encantadora com os cabelos molhados pela tempestuosa e passageira chuva. Como eu poderia me afastar da única sensação de eternidade que me era possível apalpar? Se eu fosse alguém, eu era apenas ali.
A menina vinha, os cabelos eram cacheados nas pontas e  tinha uma cor que me lembrava algo que não sabia o que era. Os olhos eram grandes e vivos e fortes e eu tinha medo de decepcioná-la. Um medo mortal.
Ela se sentava ao meu lado e por alguns momentos apenas olhava as árvores também, ela sorria às vezes, uma dia a peguei chorando e não compreendi como algo tão lindo causaria lágrimas. Mas a menina não dava explicações.
Eu contava para ela a história de como você chegara ali, repetia cada detalhe das flores que brincavam no tecido dançante do seu vestido, eu narrava o amor que nós tínhamos ali, o nosso lugar perfeito. Explicava a ela como era o som do vento, como eu desamarrava os cadarços do sapato sempre lustroso que calçava, como você se jogava ao chão e fingia choros compulsivos quando eu não fazia a sua vontade, para logo depois saltar sorrindo e passar os braços por meu pescoço dizendo que me amava, me amava, me amava.
Nessas horas a menina sempre encostava a cabeça nos meus ombros e eu ficava com a ideia de que talvez você tivesse voltado, mas para onde você tinha ido? E ela também me abraçava, mas concentrava-se mais em me apertar bem firme as mãos, quase doía seu aperto. Minhas mãos não eram mais as mesmas e isso me deixava triste, a menina então dizia que me amava, e o eco da sua voz vinha: você me amava...
Fingindo distração com um graveto, ela começava a me contar uma história, alguns personagens pareciam tão reais. Havia um homem completamente apaixonado por uma garota (todas as histórias eram assim?), havia um bosque verde com o nosso e eles foram muito felizes naquele lugar. Tão felizes que seria impossível esquecer tudo aquilo.
E a menina dizia que a mulher de vestido florido casara-se com o moço dos sapatos lustrosos, e fora uma cerimônia maravilhosa, talvez eu fosse bom em imaginar casamentos porque o modo como ela descrevia as coisas faziam com que eu quase conseguisse enxergá-las.
Nessa hora a menina sempre começava a chorar e sem dar explicações ela me apertava as mãos e balbuciava que o casal tinha sido feliz para sempre. E que o para sempre deles para muitas pessoas seria entendido com muito pouco, mas para os dois seria eterno. Como o bosque e a lembrança daquela mulher linda dançando por ali.
Ela havia morrido enquanto ele fora servir na guerra. Complicações de um coração que ficara para trás faltando um pedaço. Tinham uma filha que esperava todos os dias até que o pai chegara e eles tentaram como foi possível seguir em frente.
Agora nada mais importava porque ele estava novamente naquele bosque, ele tinha novamente a mulher que sorria e dançava. Para ele apenas, mas que diferença isso faria?
Ela era a neta daquela mulher e essa era a hora em que ela me chamava para entrar, ela me abraçava e prometia me contar muitas histórias, mas dizia que ali estava frio demais, que eu não poderia me arriscar assim.
Eu sabia que ela me amava, eu reconhecia o amor. Mas não havia como explicar para mais ninguém que ali eu não estava me arriscando. Ali eu estava vivo.
Não era uma espera. Não era tristeza.
Eu apenas vivia quando estava ali.


(Ao som de: Somewhere only we know - Keane)
Texto para o Projeto Bloínquês.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Da incoerência que me cala


Dom Cícero*, Paraná ,25 de fevereiro de 2001.

Miguel,
Dez milhões de coisas passaram pela minha mente antes que eu começasse a tremer as mãos para te escrever. Tantas vezes eu comecei e desisti que nada garante que você abrirá o envelope e estarão lá dentro palavras minhas. É complicado quando não se sabe bem o que dizer.
Poderia mentir dizendo que sei bem o que fiz da minha vida e tenho convicção das minhas decisões, mas de que adiantaria? Soaria tão falso que nem a caneta se convenceria. Não sei de nada. Sinto tanto por isso.
Você partiu e então não consigo passar um dia sequer sem chorar, as fases chegam e me assombram, eu penso que te odeio por ter ido e me deixado aqui, pedaço de sonho quebrado no meio. Penso que te amo tanto e que por isso a dor que vem me sufoca e me lança ao chão. Nem as folhas que aí enfeitam a paisagem estão por aqui para que eu me jogue e peça ao vento para me cobrir delas. Ainda penso que tudo tem uma explicação e que as coisas são quanto têm de ser, mas me canso de filosofias bonitas e nada práticas.
O pior de tudo é saber que eu desatei o laço, eu te mandei embora, eu disse não para uma vida que planejamos juntos, calculamos e mais que isso, sonhamos.
Amor, sinto tanto. Nada foi de mentira, agora pode parecer absurdo te contar tudo isso e talvez o destino dessa carta também seja o lixo, mas eu jamais tive vontade de soltar sua mão. Sinto uma falta sem tamanho dela me apertando os dedos agora e há um buraco crescendo entre elas, vem me completar.
Tenho pesadelos que Paris te apresentará francesas lindas e dispostas a tornarem reais os planos que eu fiz para você. Os cafés que nós visitaríamos, as fotos enquanto a cidade anoitece e os beijos que não serão dados por mim.
Você leria para mim pela manhã enquanto o Sol começaria a clarear o quarto, o vento fazendo tamborilar a cortina branca da janela que apontaria para um muro, o nosso apartamento de estudantes decorado com ar retrô, discos de vinil servindo de prateleiras e porta-copos.
Vê? Sonhei sim, e sonho ainda. Sonho tanto, não há noite que não passe em claro e dia que não sonhe com você sorrindo e cantarolando meu nome com sotaque francês.
Queria te dizer que foi por falta de amor que larguei tudo, resolveria parte dos meus problemas e conflitos internos.
Há dentro de mim um espaço destinado às promessas que me fiz e que ainda não cumpri. Nunca é tarde ou madrugada para retirar tudo dessa caixa e jogar na minha cara que toda dor que vier é por infantilidade e medo bobo de ser feliz para sempre, você saberia me trazer isso.
Não foi falta de fé na possibilidade certeira do nosso sucesso juntos. Minhas promessas são medrosas, covardes, pode chamá-las para a briga se quiser. Mas por favor, não desista de tentar fazer cada uma delas tornarem-se eternas nas lembranças do que a gente viveu.
Prometi que Paris seria nosso lar e que nosso amor causaria inveja nas gárgulas de Notre-Dame, por favor, não deixe isso morrer.
Seria injusto da minha parte pedir para você confiar em tudo isso. Mas como não torcer fervorosamente para nosso amor vencer todos os devaneios tolos que me atormentam e não me deixam largar tudo aqui e ir atrás de você? Quero amar você sem precedentes, mesmo. Quero um filho seu, um sorriso seu de bom dia por todas as manhãs. Quero que você leia trechos dos meus romances favoritos e me diga que não existe história que valha um livro mais que a nossa. Quero que a nossa história continue sendo nossa, mas não posso prometer mais nada.
Não me encontro com credibilidade para pedir sequer que você leia tudo isso. Não sei de mim, não compreendo o medo de realizar o sonho de estar com você, ser dançarina de uma Escola séria e viver em Paris. Mas nem tudo é passível de compreensão nesse mundo, essa é a verdade que me salva da insanidade.
Por hora mon amour, peço até com vergonha porque sei que não tenho mais esse direito, me ajuda a ter coragem para realizar as promessas que ainda nos sobraram. Me ajuda a prometer tudo de novo e a realizar. Me promete Miguel que você nunca vai desistir de me fazer melhor, por favor...
No meu aniversário eu só queria a certeza de que existe em Paris um pedaço de mim esperando minha mão para acariciar os cabelos que aposto estão crescendo já.
Eu só queria que você acreditasse que prometido ou não, você será sempre o meu amor. Cumpra o que se cumprir.
Mon Amour.

Da sua pequena,
Lívia.

Texto escrito para a edição musical do Projeto Bloínquês.
Carta resposta desse texto aqui. Lívia e Miguel são os personagens centrais do romance 'Meus Pijamas em Paris?!' lançado por mim pela editora Biblioteca 24 Horas. Dom Cícero é uma cidade fictícia do estado do Paraná, criada para ser o cenário do romance.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Por que você se fez tão linda?


Paris, 05 de fevereiro de   2001.
Lívia,
Eu sei que a primavera enche seus dias de luz e flores, aqui no velho continente o outono é como nas imagens que víamos na tevê, milhares de folhas tomam o chão e o vento torna quase insuportável sair às ruas sem um bom agasalho.
Sempre soube que Paris era linda, quase como sabe-se que o Brasil é quente e o Rio de Janeiro é a cidade maravilhosa. Existe em cada esquina um ar tão romântico... Sinto sua falta.
Queria seguir o protocolo e te enviar uma primeira carta narrando cada milímetro da minha escolha, essa que desejo veementemente que culmine em uma carreira de sucesso e a mulher que amo do meu lado.
Amor, não entendo seus motivos, não entendo porque de um dia para o outro os sonhos tornaram-se pesadelos e não entendo porque você abdicou de tudo assim, tão fácil.
Sabe, eu não entendo como você desistiu de viver nossa história de amor, não por ser Paris ou pelo curso de dança ou por qualquer motivo. Não entendo como você abriu mão tão fácil do que era pra sempre em mim.
Durante algum tempo tive medo de que a verdade nua e crua fosse que era em mim, só isso. O sonho, o amor, tudo. Mas Paris me mostra você em detalhes, durmo, acordo, estudo, trabalho e o seu cheiro impregnado nas minhas mãos não sai ainda que eu as lave compulsivamente. Em cada milésimo eu penso em você. Em cada café sinto o seu gosto. Em cada livraria sinto sua falta. Em cada 'cada' eu penso que não poderia ser tão forte se fosse apenas em mim.
E a lembrança do seu rosto, do seu sorriso e do seu sotaque forçando um francês fofo me arremessam ao chão cheio de folhas mesmo, praticamente nu em meio ao vendaval. Nossas canções foram expulsas do som, mas elas não me deixam descansar a mente sem trazer você de volta.
Queria que tudo fosse mais simples e se resumisse em 'eu te amo' e 'você me ama'. Talvez o amor não exista ou resista. Mas algo me mata e quero muito morrer nos seus braços. O que é isso então? Me canso de analisar tudo e não consigo mais não sofrer os minutos pingando e me lembrando que em outro continente está o brilho de olhos que mais procuro. Paris é a cidade luz e eu procuro uma sombra que não está passeando por aqui.
É uma carta estranha, eu sei. E estranho mesmo é o fato de que eu não consigo te esquecer, ainda que pense que você desistiu de tudo e de mim, ainda que olhe ao redor e veja o meu futuro me esperando.
Eu assistia você dormindo e acreditava que ali naquele universo de sonho você era ainda mais encantadora, quase sempre sorrindo. E agora eu peço ao vento pra voar longe e trazer você pra mim, porque quando eu durmo não é suficiente a sua presença.
Por dias eu quero largar tudo e ir atrás de você, e Paris me olha de soslaio e eu entendo que escolhas não podem ser largadas assim.
Estou aqui e você não, mas sabe amor, não te deixo assim tão fácil.
A França, o Brasil, o mundo, tudo é bem pequeno se a gente olha de longe. E mesmo que você leia tudo isso, me ache louco e rasgue, eu vou voltar.
Eu vou voltar para você, porque você é a parte que me cabe desse Universo pequeno. Paris pode até não contar nossa história de amor, isso não a tornará menor, amores são amores, onde quer que estejam.
Sou seu.

Miguel.

(O Miguel e a Lívia são personagens do romance escrito por mim,  'Meus Pijamas em Paris?!', publicado pela Editora Biblioteca 24 Horas. As vendas por enquanto estão disponíveis apenas pela internet, aqui. Essa carta não é parte da obra, é apenas um conto que escrevi para a Edição Musical do Projeto Bloínquês. Mais detalhes do livro serão expostos em breve!)




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