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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Do que o vento não leva


Amor,
Talvez eu devesse começar dizendo que sempre admirara mais do que o normal o mar, a sua inconstância previsível. É um aspecto bem peculiar, não acha? Todos sabemos que é arriscado, qualquer um entende o movimento contínuo que molha e recua, mas mesmo assim a gente se deixa encantar. Se deixa parar e olhar, ainda que saiba que é impossível retê-lo, criamos castelos, enchemos poços com a água e quando menos esperamos, lá se foi tudo.
Hoje eu não sei o que te dizer, porque sinceramente eu queria não te amar, eu queria não ter sonhado com seu retorno durante cada noite e dia desses anos todos, eu quis tanto me afogar mil vezes e em cada uma delas era a sua presença que me resgatava. Em todas as lembranças você me sorria e dizia que nós agimos certo sem querer. Eu queria estar contigo. Eu queria tanto ter tido a voz para dizer que não me importava com a incerteza do futuro, eu tinha certeza que era você.
E você, tão certo, tão meu, tão montanha que sempre está ali, veio. Você veio e eu que sou só mar não soube o que fazer. Mais uma vez permiti que você mergulhasse, bem mais que isso, eu desejei muito que você realizasse todos os sonhos que esperaram sua volta, eu te trouxe para perto e nesse momento, me diz, aonde está você agora além daqui dentro de mim? Dentro desse mar revolto e sem oceano para se desaguar?
Então eu me perco porque a incoerência dentro de mim é sem fim. Eu te amei com todo o amor que fui capaz, um amor que eu pensei ter matado anos antes e que tive que encarar forte e vivo, apertando o peito e diminuindo o espaço de entrada de ar para os pulmões. Mas eu não sei me entregar, não sei pular, não sei não ser mar. E você foi embora novamente porque eu não soube te pedir para ficar e muito menos segurar sua mão e ir com você.
Sabe Miguel, durante todos esses anos eu te escrevi, eu vinha até aqui porque achava que perto do mar estava mais perto de você. Eu sentava nas pedras, deixava o vento me atordoar e a dor ia embora, devagar. Não vai ser mais assim. Eu deixo a onda me acertar mas nenhuma dor vai embora agora.
Talvez eu tenha crescido anos nos dias que você esteve aqui, talvez a força do amor que nós vivemos foi tamanha que eu tenha me acovardado mais ainda, talvez eu não fosse o certo. Queria a certeza de que foi só o tempo que errou, que nossas escolhas foram mesmo as melhores, ao menos as possíveis. Mas sei que a culpa é minha.
Vai ser difícil sem você, sem a esperança que eu fingi calar todo esse tempo de que uma hora ou outra você bateria na porta da minha casa, escalaria a torre imaginária, lutaria com qualquer dragão para me resgatar. 
É a última vez que eu te escrevo e quero que você fique com a lembrança de quando olhávamos juntos na mesma direção, sabe amor, você me fez feliz como eu jamais seria. Você me fez querer ser qualquer coisa para ficar ao seu lado. Você me fez querer ser só sua.
A vida continua e se entregar é uma bobagem, apenas me perdoe por ter sido covarde a ponto de renunciar ao nosso amor, nosso sonho e nossa história.
O plano era ficarmos bem, um dia quem sabe eu esteja pronta para concretizar planos.
Um dia quem sabe eu me faça mais forte, a coragem roube a cena e ocupe o lugar da dor de saber que fui eu quem estragou tudo, quem sabe eu vá atrás de você e te diga que nunca tive coragem de mandar sequer uma carta, mas não houve momento em que não esperasse um aceno seu de volta. Um dia quem sabe eu te ame como você merece, por inteiro, sem medo, sem covardia, sem fuga.
Por enquanto eu ainda não consigo passar por cima do medo, ainda que você mereça tanto, ainda que eu saiba que é mesmo amor o que eu sinto. Ainda que eu saiba que talvez não haja mais tempo depois.
Dizem que o mar tem dessas coisas, quando ama algo demais acaba destruindo, levando para o fundo, estou te devolvendo à praia antes que faça estrago pior.

Lívia.

(Ao som de Vento no Litoral - Legião Urbana)

[Algum tempo atrás postei cartas entre esses dois personagens, Lívia e Miguel. São os protagonistas do meu romance, 'Meus Pijamas em Paris?!'. Nenhuma delas está no livro, essa inclusive pode ser considerada um final alternativo para a história.]


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Da incoerência que me cala


Dom Cícero*, Paraná ,25 de fevereiro de 2001.

Miguel,
Dez milhões de coisas passaram pela minha mente antes que eu começasse a tremer as mãos para te escrever. Tantas vezes eu comecei e desisti que nada garante que você abrirá o envelope e estarão lá dentro palavras minhas. É complicado quando não se sabe bem o que dizer.
Poderia mentir dizendo que sei bem o que fiz da minha vida e tenho convicção das minhas decisões, mas de que adiantaria? Soaria tão falso que nem a caneta se convenceria. Não sei de nada. Sinto tanto por isso.
Você partiu e então não consigo passar um dia sequer sem chorar, as fases chegam e me assombram, eu penso que te odeio por ter ido e me deixado aqui, pedaço de sonho quebrado no meio. Penso que te amo tanto e que por isso a dor que vem me sufoca e me lança ao chão. Nem as folhas que aí enfeitam a paisagem estão por aqui para que eu me jogue e peça ao vento para me cobrir delas. Ainda penso que tudo tem uma explicação e que as coisas são quanto têm de ser, mas me canso de filosofias bonitas e nada práticas.
O pior de tudo é saber que eu desatei o laço, eu te mandei embora, eu disse não para uma vida que planejamos juntos, calculamos e mais que isso, sonhamos.
Amor, sinto tanto. Nada foi de mentira, agora pode parecer absurdo te contar tudo isso e talvez o destino dessa carta também seja o lixo, mas eu jamais tive vontade de soltar sua mão. Sinto uma falta sem tamanho dela me apertando os dedos agora e há um buraco crescendo entre elas, vem me completar.
Tenho pesadelos que Paris te apresentará francesas lindas e dispostas a tornarem reais os planos que eu fiz para você. Os cafés que nós visitaríamos, as fotos enquanto a cidade anoitece e os beijos que não serão dados por mim.
Você leria para mim pela manhã enquanto o Sol começaria a clarear o quarto, o vento fazendo tamborilar a cortina branca da janela que apontaria para um muro, o nosso apartamento de estudantes decorado com ar retrô, discos de vinil servindo de prateleiras e porta-copos.
Vê? Sonhei sim, e sonho ainda. Sonho tanto, não há noite que não passe em claro e dia que não sonhe com você sorrindo e cantarolando meu nome com sotaque francês.
Queria te dizer que foi por falta de amor que larguei tudo, resolveria parte dos meus problemas e conflitos internos.
Há dentro de mim um espaço destinado às promessas que me fiz e que ainda não cumpri. Nunca é tarde ou madrugada para retirar tudo dessa caixa e jogar na minha cara que toda dor que vier é por infantilidade e medo bobo de ser feliz para sempre, você saberia me trazer isso.
Não foi falta de fé na possibilidade certeira do nosso sucesso juntos. Minhas promessas são medrosas, covardes, pode chamá-las para a briga se quiser. Mas por favor, não desista de tentar fazer cada uma delas tornarem-se eternas nas lembranças do que a gente viveu.
Prometi que Paris seria nosso lar e que nosso amor causaria inveja nas gárgulas de Notre-Dame, por favor, não deixe isso morrer.
Seria injusto da minha parte pedir para você confiar em tudo isso. Mas como não torcer fervorosamente para nosso amor vencer todos os devaneios tolos que me atormentam e não me deixam largar tudo aqui e ir atrás de você? Quero amar você sem precedentes, mesmo. Quero um filho seu, um sorriso seu de bom dia por todas as manhãs. Quero que você leia trechos dos meus romances favoritos e me diga que não existe história que valha um livro mais que a nossa. Quero que a nossa história continue sendo nossa, mas não posso prometer mais nada.
Não me encontro com credibilidade para pedir sequer que você leia tudo isso. Não sei de mim, não compreendo o medo de realizar o sonho de estar com você, ser dançarina de uma Escola séria e viver em Paris. Mas nem tudo é passível de compreensão nesse mundo, essa é a verdade que me salva da insanidade.
Por hora mon amour, peço até com vergonha porque sei que não tenho mais esse direito, me ajuda a ter coragem para realizar as promessas que ainda nos sobraram. Me ajuda a prometer tudo de novo e a realizar. Me promete Miguel que você nunca vai desistir de me fazer melhor, por favor...
No meu aniversário eu só queria a certeza de que existe em Paris um pedaço de mim esperando minha mão para acariciar os cabelos que aposto estão crescendo já.
Eu só queria que você acreditasse que prometido ou não, você será sempre o meu amor. Cumpra o que se cumprir.
Mon Amour.

Da sua pequena,
Lívia.

Texto escrito para a edição musical do Projeto Bloínquês.
Carta resposta desse texto aqui. Lívia e Miguel são os personagens centrais do romance 'Meus Pijamas em Paris?!' lançado por mim pela editora Biblioteca 24 Horas. Dom Cícero é uma cidade fictícia do estado do Paraná, criada para ser o cenário do romance.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Do pedido





Querido,
Fujo ao protocolo e te escrevo novamente, não sei esperar respostas, não sei contar carneiros e muito menos estrelas.
Conto os dias para te ver, coisa infantil de quem risca com lápis de cor vermelho de ponta ruim o calendário, fazendo vez ou outra um coração apaixonado, bobo e solitário em meio aos milhares de 'xizes' existentes naquela folhinha tola.
Eu espero que você esteja grandioso e bem. Veja, grandioso. Sim, eu espero que você esteja vencendo os desafios que te movem da mesma forma que eu estou aqui tentando fingir conformidade com a resignação que me propus.
Verdade fosse dita e se ainda pudesse ser esse o meu forte, eu diria que te amo.
Eu diria que não me importa como você está, me chame de egoísta ou do nome que desejar, importante faz-se a sua presença aqui. Importante é o calor que emana do seu abraço quando eu sinto medo a ponto de perder o controle. Importante era a nossa música cantada no programa da madrugada da rádio porque você sabia que eu ficaria estudando e o rádio estaria ligado, porque você ligava e pedia e me fazia acreditar que eu era terrivelmente importante para você, a ponto de não importar mais nada.
Eu fujo do assunto, você me conhece.
Os acontecimentos prosseguem, eles vão indo em frente, a fama está começando a me atingir e vez ou outra alguém desse mundo tão pequeno me para na rua e comenta alguma coisa sobre as coisas que eu escrevo. A vontade de dizer que é para você tudo some em algum lugar, no meio do buraco que fica porque você parte sempre.
E então talvez seja a hora de começar a usar todas essas palavras que se dizem tão minhas amigas para te contar algumas inconveniências aleatórias. Eu torço para o Vasco. É paixão boba, de menina, aprendi com o tio. Flamenguista que só você nunca aceitaria e por isso a minha sina de torcer calada, não quero mais. Eu sou mimada e odeio as roupas jogadas pela cama, as dos outros, as minhas eu posso colocar onde desejar. Eu sou machista e penso que homem sensível é bonito, mas não é para mim.
Eu te desejo com uma urgência e ardência de dar medo. Eu te quero de uma forma que me assusta porque eu não sei lidar com essa necessidade toda de dizer te amo. Eu nunca digo isso.
Eu deixei de me importar com o lugar que escolhi para criar meus filhos, eu deixei de querer uma filha com o nome que você não gosta, eu mudei sem que você me pedisse nada. E eu passei a querer pedir.
Aquela menina que sempre se disse livre e pregava relacionamentos modernos. Eu comecei a querer pedir, e a sussurrar para a cortina da sala, o abajur do quarto, o telefone mudo que você podia ficar.
E a ficha caiu.
Não é uma amizade com desejo. Não é um desejo amigo. Não é apenas a vontade de que você seja o meu melhor amigo, o meu homem. É vontade de que seja meu.
Meu tudo. E principalmente meu marido.
Sou terrível, eu sei.
Mas grita aqui dentro que a gente precisa se casar como na canção do Jeneci, domingo de sol e um tecido claro e fino se balançando pelo ar.
Casa comigo dono do meu plano perfeito?
Casa comigo porque você é o meu plano perfeito, porque eu brinco de ser gente mas quando você está aqui eu nem sei o que eu sou, eu quero só ser com você.
Marry me, love.
Você quer casar comigo para ser o marido de uma mulher boba que durante as noites acorda para te ver dormir? Você quer se casar comigo e ser o meu sonho de consumo mesmo voltando de uniforme suado depois da pelada do domingo?
Você quer se casar comigo e experimentar todo dia o felizes para sempre que a gente sempre abusou e implicou?
Porque meu querido, eu nunca tive tanta certeza de algo como eu tenho agora, palavras tremendo ao saírem, pedaço de linha pronto para dar um nó no seu dedo e dizer que somos bem casados.
Lembra daquele filme em que um lindo garotinho dizia querer se casar com a mocinha para poder beijá-la a vida inteira?
Case-se comigo porque por todo esse tempo e por todo que virá eu quero ser beijada apenas por você.
E não bastasse isso eu quero que meus filhos tenham os seus cílios, eu quero sua companhia na cozinha e em todos os cômodos.
Eu nunca te pedi para ficar e talvez hoje seja o pedido mais difícil da minha vida. Mas eu te juro que se você disser sim a gente pode tentar encher tudo de balões e voar como naquela história infantil de um casal que se amou tanto que borboletas vinham realizar os sonhos de viagem deles.
Amar você acaba com minha moral de pessoa adulta, madura e séria.
Amar você me faz querer estar com você a cada loucura pensada.
E não é uma aliança que mudará tudo isso, nem a toalha molhada em cima da cama, nem o seu sobrenome colado no meu.
O que me fará melhor é a certeza de que para sempre, todos os dias, é o seu beijo que vai me acordar do sonho e me mostrar que o conto não é de fadas, mas o amor é mesmo o segredo.
Perdido o medo, pedido não é mais segredo.
Amo você.


Tay.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pra dizer Jamais



Querido,
Há espaço para mais uma carta aí? Bem sei que você não tem coragem de se livrar de todos os papéis sentimentais que te mando. Bem sei que você abre cada envelope com o olhar esnobe de quem abre correspondências bancárias mas lá no fundo desse coração infantil que você insiste não ter, lá você suspira e até sonha que eu esteja indo de brinde, no envelope.
Ah amor, eu estou morrendo. Sim, morrendo.
Não faça essa cara, uma hora ou outra isso aconteceria, todos nós estamos morrendo, a cada segundo menos vivos.
Eu quero então pagar meus pecados e os seus, dizendo algumas verdades que não poderei levar comigo, ok? Sente-se e abra a janela, deixe o vento do inverno te esfriar e me puxe pela mão na sua memória.
Eu fui intensamente feliz, sempre. Sinto por você, sinto porque você sempre quis tanto, tudo, mas você que tinha os pés no chão e esse medo de decepcionar aos outros acabou não sendo. Por favor, ainda dá tempo. Sabe, seus pais não têm sinceras pretensões de que você seja o próximo Nobel da Paz, não seja sempre tão certinho.
Eu nunca te disse, mas o primeiro porre é terrível, não beba. Na verdade a gente não precisa disso pra ser feliz.
Nunca falei muita coisa e sinto por isso, sinto porque me percebo morrendo aqui e aí, onde pensei que fosse viver para sempre.
Te deixar foi minha escolha em meio às opções diversas, mas eu realmente acreditei que você viria comigo. Foi um 'solta da minha mão' pedindo pra você apertar mais, doeu pra burro você não ter entendido essa entrelinha.
Agora, eu vou morrer. Não há nada que eu possa fazer ou você, é a vida, ela finda. Não há uma doença terminal, não se preocupe, estou indo sem dor, sem medo.
Eu só queria que você abrisse o peito e a janela todos os dias, que se permitisse amar como nunca nos permitimos, que não temesse o pulo, sofresse a queda, chorasse a solidão e arrebanha-se corações alheios. Não se perde por exceder a velocidade das próprias vontades, pelo contrário amor, perde-se por temer o excesso, ficar parado é para as pedras, gente foi feita pra movimento.
Agora chore a minha ida, porque sinceramente, eu sei que doerá, mas esteja de olhos claros, limpos e abertos, eu vou voltar. Sim, no sentido verdadeiro, literal e real. Eu vou voltar porque morrendo estou desde sempre, desde que nasci.
Morro e morrerei até que de fato meus dias se cumpram. Mas te quero comigo, quero e precisei me assustar com essa verdade pra entender isso, se for pra partir, que a última palavra eu diga aos seus ouvidos.
Vou morrer um dia e sei que nesse dia, e em todos os outros que viverei até lá, sendo amanhã ou daqui a cem anos, eu quero estar com você.
Tem espaço aí? Tem espaço pra uma louca que faz cartas dramáticas e que teve que partir pra descobrir que seu lugar no mundo era o de antes, que ela sempre ocupara.
Eu estou morrendo mas enquanto vivo, preciso de você. Preciso da certeza gostosa de que a cada dia será menos um vivido, mas um a mais aproveitado com você, da melhor maneira possível.


Com o amor mais insano do Universo,
Tay.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Da saudade



Lembro como você dizia as palavras e elas soavam como canções. A voz que tinha um tom autoritário e gentil, como quem manda dizendo por favor. Lembro como as coisas mudaram quando você chegou.
Uma amiga diz que sinto muita falta, sinto sim, sua então... Eu sinto toda vez que piso naquele lugar, toda vez que alguém me pergunta se eu chorei no último dia e eu digo que as lágrimas só me vieram quando eu te abracei.
Você não deve entender, quase ninguém entende. Deve ter a ver com meus defeitos de fábrica, sou uma criatura esquisita.
Mas olhar esses seus olhos me faziam um bem! Eles tinham alguma coisa que me deixava sempre perdida, mas segura. Compreende? Era como se a essência fosse mesmo essa, se perder para encontrar caminhos novos, querer buscar o desconhecido... Sem fio de Ariadne, sem medo de Minotauro. Sinto falta de labirintar.
Sinto das conversas que envolviam sonhos, pesadelos, medos e metas, as conversas que eram interrompidas a cada cinco minutos. Sinto uma tremenda falta de te ouvir, de escutar conselhos que você mesma não seguia, de me encantar com você ali na frente desvendando o mundo.
Sinto saudade, que é bem mais que falta, do seu abraço magrelo e tímido, do jeito que você dizia 'Tay' e me chamava a atenção, me mandava focar e parar de fazer tempestade em copo d'água.
Sinto sim, e não é porque sou a pieguice em pessoa, é porque de uma maneira que nem eu entendo, de uma forma que eu sei que não é certa porque você já tem o seu mundo, eu te adotei. Criada já. Eu peguei aquela criatura cheia de certezas firmes e dúvidas caladas, aquela menina de olhar pra cima mas jeitinho de criança olhando pro mar pela primeira vez.
Bem feito pra mim, quem foi que disse que era certo me apegar assim, desse jeito, tanto?
Você bateu asas, você foi viver tudo de lindo que a vida tem pra te oferecer e eu fiquei aqui, com a falta que se faz de chiquérrima pra tentar ocupar o lugar que você ainda está.
E você lendo tudo isso vai pensar, ela é uma novela mexicana mesmo, precisa tudo isso?
Ah amiga, sinto tanta saudade! Eu sei que você está aqui, é muito presente, mesmo com esse mundo de coisas entre as nossas órbitas. Só preciso colocar um pouco dessa coisa que prende o ar pra fora...
E quero muito muito que você saiba que eu acredito no seu poder de voô!
Tanto! O vento pode bater e desestabilizar suas asas delicadas, mas eu sei que você é forte.
Sinto sim, muita falta, mas eu sei que você vai longe ainda, preciso apertar o peito e afrouxar o laço.
Voa, voa...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Pra aquecer



"Querido,
Você provavelmente está rindo o seu sorriso mais doce ao ver o meu embrulho chegar, em algum lugar aí dentro você deve ter previsto que cedo ou tarde eu enviaria meu coração dentro de uma caixa, já que a chave você julgou sempre pertencer.
Por dias eu quis arrancar o peito e te enviar sim, depois veio a raiva e tivesse eu contatos terroristas um pó estranho chegaria pelo correio.
Mas passou o temporal e veio o vento com seu cheiro sabe? Maldito perfume esse seu que não há banho que afaste.
Então por favor, para começar, desfaça o sorriso, não te mando boas novas, sinto muito. Não são boas e nem novas, são apenas notícias de uma vida que vai seguindo em frente. Aqui e ali tropeço com suas roupas jogadas no sofá, sua toalha sobre a cama e a sua mania de apertar a pasta de dente no meio. Eu te persigo na memória e te expulso na vida real, coisa insana.
É que não dá pra te querer pra sempre, não com você aí, sem saber ao certo o que fazer. Não dá pra deixar a janela aberta todas as noites esperando e confiando que uma hora você vai se tocar da minha ausência, se tocar da sua ausência e me trazer de volta o que me falta. Maio vem aí amor e está esfriando aqui, preciso fechar as portas que te esperam.
Foi sua opção, não a minha, mas que bem que lhe quero aqui dentro!
Sabe aquela coisinha da gente passar a tarde de mãos dadas olhando para as árvores balançando suas folhas e dizendo que com a gente ia ser tudo diferente, é.
É diferente porque as pessoas dizem que a gente acabou, mas eu me lembro de você me deixar sorrindo com um beijo na testa e ir-se indo. Gerúndio não aceita ponto final, é contínuo e a gente ainda vai construir alguma coisa, sei que vai.
E mando então madeira. 
Sou uma tolinha amor, mas eu sei que não há calor aí também. Sei que o frio que faz nos meus pés não são suas meias que vão alterar.
Mando matéria-prima da fogueira que preciso que te aqueça, imagine que fui até a árvore que era nossa paisagem distante e pedi permissão para arrancar alguns galhos. Expliquei que era causa justíssima amor. Ela deixou.
Lembrei você lendo Clarice e me dizendo que me amava do seu jeito de apanhar gravetos.
Pega a caixa e sente, tem fogo morto esperando nascer aí. Faz favor de ligar.
Faz favor de colocar aí no seu peito murcho que você está tentando fingir de cheio, deixa aquecer e colorir seu rosto, deixa avivar os olhos e quando estiver queimando tudo, vem pra mim.
Imagine a confusão pra eu me convencer que não enlouquecera de vez ao te enviar pedacinhos de pau, insistia que era o jeito, não há que se fazer quando o outro insiste em comer terra pra esquecer que já foi mais que um.
Agora amor, aquele sorriso do início, quando você colocou os ouvidos no embrulho e tentou ouvir um turu-turo desafinado, volte com ele.
Razão não queria lhe dar, mas é sua a chave.
E é seu o fogo.
Junte tudo com carinho e me traga uma fogueira linda.
Faz favor amor de vir logo que o fogo é grande e pode queimar tudo se você não dividir.
Tenha medo não que está escuro, mas a claridade vem contigo, e se a janela estiver fechada incendeie que acordar em meio ao fogo nosso vai ser no mínimo maravilhoso.


Com carinho de um coração teimoso,
Beijo,
Tay.



(Texto escrito para a edição cartas do Projeto Bloínquês)

quarta-feira, 16 de março de 2011

A vida é la fora



"Qual é a parte
Da tua estrada
No meu caminho"

Eu tenho absoluta certeza que você não precisaria dessa carta, pelo contrário, você provavelmente está lendo e o papel começa a se amassar, não seja cruel, ele já sofreu o suficiente nas minhas mãos. Você não é assim, lembra? Você é o melhor garoto do mundo e a raiva vai passar, você sabe que vai.
Eu não poderia estar aí com o vestido branco que escolheram para mim, não podia sorrir e aceitar o futuro que nos impuseram, eu sei que sua mãe vai querer me matar e meu pai nunca vai entender minha decisão, de uma forma meio egoísta eu não me preocupo com eles, eu me preocupo com você, acredita em mim? Eu sei que você acredita.
Aí dentro existia um garoto que andava de mãos dadas comigo e sabia que eu não tinha vocação para princesa, nossa canção não era melosa e nossos planos não envolviam nada disso, quando foi que as pessoas começaram a tomar conta de tudo?
De um jeito tão bom eu gosto tanto de você, não é porque foi com você que eu vivi as coisas absurdas que eu acreditava idealizar sozinha, não é porque você usava aquela bermuda xadrez que te deixava ainda mais magrelo e eu ria do jeito que você entendia de moda, não é porque a gente pescava junto e fazia planos de voar de balão. Não é porque nada. Eu gosto e pronto, vão dizer que é mentira mas você sabe aí pertinho do seu rim que eu gosto, na sua supra-renal. No seu peito você tá cansado de saber já, acho que você soube desde o primeiro não que te disse que era um sim metido a besta e arrogante que teimava em ficar guardado no fundo da garganta.
Não posso estragar tudo isso assinando um contrato. Um contrato amor. A gente precisa disso mesmo? Porque eu nunca pensei que precisasse de testemunhas pra dizer que isso é real, eu nunca imaginei que seria preciso duas crianças que nada entendem da vida levarem alianças que a gente sempre soube o que significava. Eu não quero isso pra mim, não quero pra você, não quero pro que foi e tiver ainda que ser nosso um dia.
Então eu sinto muito por você estar aí e eu não poder segurar sua mão e rir das roupas emplumadas que as pessoas insistem em usar, é demais pro meu humor sarcástico, me perdoe.
Vou pra qualquer lugar que não seja aí, bem que você podia tirar essa gravata besta e vir comigo né? Tem espaço pro nosso amor em qualquer canto desse mundo, ele é compacto mas gigante, lembra que você me dizia vendo aquela propaganda?
Lembra que haviam planos, eles estão aqui ainda, ali na minha penseira onde você desenhou estrelas e me prometeu com um bilhete que a lua sentiria inveja branca do nosso amor bobo.
Então me perdoe porque não tenho força pra enfrentar essa convenção, mais que isso você fez por mim, bem mais, só que eu sei que por você, por mim, por todos os casais que vivem o conto de fadas dia a dia e que não esperam o felizes para sempre de um oficial religioso, por todas as princesas que são na verdade metade ogro, a gente pode ser feliz sem assinar esse papel?
Se puder, te espero.
Se não, pena, assino esse aqui e basta.
O que eu gosto de você não cabe em carta ou em cartório.
Beijos.




(Ao som de: Quase Nada - Zeca Baleiro)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Des-leal



'É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte'


Não é necessário, mas eu sinto que é preciso e isso até me faz lembrar como você dizia que eu era incoerente.
É como as cinzas velhas de um incenso que a gente joga ao vento fazendo pedidos que vá longe e alcance mundos diversos.
Jogo hoje as palavras de liberdade que senti ontem ao ver o seu olhar indiferente.
Como eu já odiei sua indiferença, como ela já me fez mal, me fez sofrer e me fez sentir pena de mim.
Ontem ela me fez apenas entender que era o mesmo olhar que eu te dava.
E eu procurei com força, tateando por todo o corpo o local daquela velha cicatriz, não achei. O colágeno de novas amizades e de gente que me faz tão bem sumiu com marcas de um inverno ruim.
E eu senti tanta pena do que foi e não é mais, uma pena triste mesmo por me lembrar de quantas vezes passei por cima de pessoas que amava por acreditar que valeria a pena, por você, mil vezes.
Não mais.
Você matou tudo, ou morreu por tempo e descuido mesmo, vai saber.
Não foram as milhares de queixas e indiretas, nem o perfeccionismo que eu me exigia quando se tratava de você.
Foi seu medo idiota de se assumir como alguém normal, que comete erros e dá a cara a tapa.
Não gosto de gente que mente pra esconder sonhos ainda não realizados.
Uma vez eu disse com tanta certeza que você seria um exemplo a seguir e hoje eu vejo que o que eu quero ser é tão além disso tudo.
Eu quero ser como aquela que sonhou e teve cautela sim, mas que não desistiu e sei que não desistiria se não conseguisse.
Se frustrar não é perder, é ter vergonha do que é de fato.
Não se preocupe, eu não vou mais pedir desculpas, não vou tentar me justificar mil vezes explicando o modo como penso ou executo meus pensamentos. Incoerente ou não ando bem satisfeita com o que sou e o que pretendo ser para ficar dando explicações.
Calma, não vou pedir que me aceite também, descobri que não o tipo de coisa que se pede, aceitação é mútua, ela existe e pronto.
Tudo isso é para dizer pra mim mesma que por mais que eu pense às vezes que tudo é um ciclo, algumas rodas gigantes tornam-se cansativas com o passar do tempo. Eu me cansei de tanto subir e descer atrás de estar entre os seus.
Quero carrinho bate-bate agora, quero segurar o volante e dar de cara com o novo sem medo algum de estar errada ou certa.
Obrigada por tudo que foi. Não é justo dizer que não aprendi, seria hipocrisia.
Mas agora quero lições em outra voz, em um tom mais ameno e mais disposto a me mostrar que é como sou, só mais um tentando aprender a realizar sonhos.
Agora eu quero me lembrar que leal eu sempre fui, embora você muitas vezes tenha duvidado disso, mas não serei mais.
Pense que serei apenas uma pessoa comum, daquele jeito que você muitas vezes já me avaliou mesmo. E pense que você agora responde do mesmo modo em mim, finalmente um pouco de reciprocidade.




(Ao som de: Boa Sorte - Vanessa da Mata e Ben Harper)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Eu não Entendo


Por que você não disse que viria?
Logo agora que eu tinha
Me curado das feridas
Que você abriu quando se foi...
Por que chegou sem avisar?
Eu queria tempo pra me preparar
Com a roupa limpa, a casa em ordem
E um sorriso falso pra enganar

Sabe, eu tentei não escrever, tentei lutar contra a vontade de dizer 'não' com o sorriso que ensaiei tantas vezes quando você se foi da primeira vez.
Eu tentei olhar pra você com os mesmos olhos, tentei ir contra a vontade de brigar novamente, tentei aceitar suas desculpas com o coração na mão e com o mundo nas costas.
Eu não fui egoísta, eu senti doer sozinha, chorei enquanto você seguia o seu caminho e quando comecei a superar você, talvez num rompante de lucidez, quis voltar.
Eu vi o quanto pareceu louco para os olhos alheios, eu aguentei o fato de todos se virarem contra mim ao aceitar você de volta, mas quer saber, cansei de viver um não-amor.
Cansei de ser a boba que aceita tudo, nunca quis te fazer sofrer, embora eu saiba do fundo da minha alma o quanto você merece, eu nunca quis te causar dor, embora eu saiba que doa. Mas eu não posso mais ter que te fazer feliz, afinal, você mesmo me fez triste tantas vezes.
Não é um jogo de vingança, você sabe que eu tentei, sabe o quanto eu quis que desse certo, mas se eu olho pra você eu me lembro do que fomos e do que você jogou fora.
Se eu vejo você indo embora eu já não sinto sua falta, acho que me acostumei a te ver pelas costas.
Acho que no fundo estavam todos certos, tem amor que não sabe ficar perto de quem ele ama. A gente não dá certo mais, foi tudo tão lindo, tão precioso pra ter sido jogado no esgoto.
Agora não venha me culpar por não querer mais, não me peça por favor, não diga que me quer ou que podemos fazer dar certo. Já deu certo suficiente. Já foi bom enquanto durou, já acabou.
Sempre quis um príncipe, achei que você fosse meu amor.
Só que agora, desculpe o modo de dizer, não quero mais nada, não quero tentar, não quero pensar se pode ou não dar certo, não quero correr o risco de ver novamente tudo jogado ao vento.
É a minha vez de fechar a porta.
Sinto muito, nem tanto por você, mas pelo que foi feito do nosso amor. Sinto porque não quero mais tentar entender esse seu coração tão confuso.

Eu não entendo a sua volta
Não entendo a sua indecisão
Num dia sou seu grande amor
No outro dia não.

Ao som de: Eu não entendo - Nenhum de Nós

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Carta ao meu Herói



I used to roll the dice
Eu costumava jogar os dados
Feel the fear in my enemy's eyes
Sentia o medo nos olhos dos meus inimigos
And I discovered that my castles stand
E eu descobri que meus castelos estavam erguidos
Upon pillars of salt, pillars of sand
Sobre pilares de sal, pilares de areia

Olá pai,
Sei que mandei uma carta na semana passada, mamãe diz que é falta de educação mandar outra sem que você a tenha respondido, mas eu precisava muito ter uma conversa com o senhor. Assim, aquela conversa de homem pra homem, mamãe não consegue entender isso.
Estava indo muito bem na escola, mas não se preocupe, tive apenas um problema com a minha professora e é justamente por isso que preciso falar com você.
É que ela passou um filme essa semana, chama-se 'Avatar', não sei se aí você já teve chance de assistir, é um excelente filme pai. O problema é que minha professora disse para todos nós que é isso que os soldados americanos fazem, eles invadem as nações, matam pessoas, destroem famílias, roubam tudo de bom que há e voltam para casa.
Pai, eu não podia ficar em silêncio. Eu sei que você não é um assassino! Eu disse a ela que não era bem assim, que nós íamos para acabar com o terror, que salvávamos as pessoas e que não queríamos destruir nada. Eu disse que você nunca ia matar uma criança, porque você tem um filho que ama muito, disse também que não mataria um homem porque sabe que ele poderia ser o pai de alguém e que você amava sua família, jamais ia fazer qualquer coisa para destruir a família de outra pessoa.
A professora não quis me ouvir, disse que eu achava que o mundo era um conto de fadas e que não entendia nada de guerra, disse que eu não podia pensar que você era um herói e que devia ter vergonha do sangue que suas mãos pingavam.
Foi impossível não chorar pai, ainda que eu saiba que homens não choram...
Porque eu vi nos jornais muitas pessoas mortas e eu tive medo que fosse você, tive medo que o seu corpo estivesse entre aqueles ou que fosse por sua culpa que eles estivessem no chão.
Eu chorei porque não quero entender que você é cruel assim pai, você não tinha coragem de matar passarinhos, teria coragem de matar gente, pai?
Por favor, me diga que não é assim, me diga que você não atira nas pessoas e que está aí por qualquer motivo que não seja tão idiota quanto demonstrar poder. Eu não quero que você faça guerra, esse povo nunca fez nada contra nossa família, porque você tem que estar aí?Por favor pai, me escreva e diga o que você faz aí, diga que você ajuda essas pessoas porque assim eu poderei mostrar a carta para ela e todos verão que você é mesmo um herói.
O meu herói, aquele que me ensinou o certo e o errado, que sabe que não podemos tirar a vida de nada, porque não temos esse poder.
Espero respostas com muita saudades do abraço apertado que você me dava sempre.
Do seu filho, Simon.
(É uma carta fictícia, Simon tem nove anos e seu pai está lutando no Iraque, foi feita para a pauta do Bloínquês, edição fotográfica).

(Ao som de: Viva la Vida - Coldplay)

domingo, 6 de junho de 2010

O gosto do Novo



A calma que esperava ainda não chegou, vai ver foi extraviada dentro de alguma bagagem e agora está em outro lugar, com outra pessoa.
Vai ver ela era uma ilusão banal que já não pode me acompanhar, sinto muito por ela, enfim.
Ainda não encontrei o que eu estava procurando, acho que não vou encontrar nunca, a neve que cai e se derrete na minha língua quente me traz a vida nova, me lembra que o ciclo nunca tem fim.
A busca começa por onde você quiser, foi o que você me disse enquanto me deixava partir sem derramar nenhuma lágrima, juro que não pensei que fosse ser diferente, você sempre soube lidar com minhas escolhas do que eu.
As gotas de chuvas continuam caindo, agora como flocos. Sinto sua falta como sentiria de um jardim na beirada da janela, se um dia tivesse tido tal jardim. Não que eu queira lhe comparar a meras flores, mas você era a minha primeira visão feliz ao amanhecer.
Queria te contar de como estou, do frio doído e feliz que sinto. Queria dizer que meu coração se aquietou e que enfim estou sim, plena.
Querido, não estou.
Mas estou bem, começando a gostar do silêncio que me acompanha como sombra, uma sombra branca ou colorida, dependente do meu humor.
Acostumo-me à solidão como quem vai devorando aos gomos uma mexerica, é possível saber o gosto desde o primeiro momento, mas você nunca sabe quão ácido será o próximo gomo.
Para você não soaria assustador, você sempre soube que eu buscava um não sei quê. Lembrando a frase que uma amiga repetia de uma autora: 'Há sempre algo de ausente que me atormenta'.
Acho que haverá, que buscarei eternamente. Tem coisas que não se encontram em lojas de conveniência, nem aqui, nem em lugar algum desse Planeta.
Queria te mandar um pouco da neve, mas ela vai se derreter, graças a Deus, nada dura para sempre. Espero que sinta o vento frio sair do envelope e que ele não te lembre os meus olhos gélidos dos últimos dias.
Saiba que estou bem, sempre estive. Saiba que você vai comigo, onde quer que esteja.
Dizia Guimarães Rosa que 'a colheita é comum, mas o capinar é sozinho'. Mineiro sabe o que diz, sempre.
Pegue a chuva, beba a água que renova o que há de melhor. Deixe as sementes brotarem e por favor, faça um jardim na sua janela.
Só não espere por mim, não por não valer a pena, mas porque se você esperar pode ser que eu volte antes da hora, antes de aprender tudo que preciso, antes de ser completa.
Veja estrelas cadentes, marque cidades no mapa atrás da porta, receba meus postais e cartas e sorria para desconhecidos, estarei nos olhos deles.
Diga aos outros que a Inglaterra vai além dos Beatles, vai além do Manchester United e além do Príncipe Charles. Ela vai além de mim e de você.
A neve tem um gosto maravilhoso, entretanto há sabores que ainda precisam ser experimentados.
A kiss for you, dear.
Fique bem.

(Citação de Camille Claudel)
(Tema proposto pela edição fotográfica do Bloínquês)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Silêncio que Não quer Calar


I have climbed the highest mountains
Eu escalei as mais altas montanhas
I have run through the fields
Eu corri através dos campos
But I still haven't found
Mas eu ainda não encontrei
What I'm looking for
O que eu estava procurando


É segunda novamente e fico com a sensação nostálgica de que o fim de semana foi tão pouco... Já me sinto cansada! Não quero reclamar, aliás, não sei bem o que quero e para quê escrevo, mas não me preocupo se as palavras perderem o sentido, às vezes é como se tal sentido fosse tão ilusório...
Vê, não sei bem o que dizer, não há histórias para contar, novidades excitantes ou apenas narrativas de momentos comuns, ainda tenho alguns problemas, mas não há em mim nada que queira compartilhá-los.
Talvez eu escreva contra o silêncio, algo meio Lispector demais para mim e até incoerente, tem sido este, por opção, um grande amigo. Quero acreditar que estou enfim me dando bem com o que existe em mim, o silêncio é a prova de que ando gostando mais dos meus pensamentos do que das palavras em si.
Talvez tudo esteja vago e a compreensão seja complicada. Sempre tivemos a capacidade de decodificar melhor períodos compostos e belos.
Não quero frases longas, queria hoje a calmaria de um campo de girassóis que sorriam em sua contemplação solar. Sinto inveja dessa apatia, da beleza estática que vem deles.
Ando descobrindo coisas estranhas sobre mim, vi que adoro o tic-tac do relógio, ele me mantém acordada e ao mesmo tempo me leva para tão longe...
Me sinto sem forças e longe de parecer caótico, isso acalma meu corpo. Sinto o vento e não quero ir contra ele, me permito ficar estagnada tentando encontrar algo que me mova.
Existe sim o movimento, sem ele eu não sobreviveria, mas tudo acontece tão internamente que fico querendo que as coisas apenas fluam em reflexo a ele.
Parece o alto de um daqueles desfiladeiros lindos que a Irlanda tem, lá embaixo o barulho do mar me lembrando o real, longe. Aqui em cima apenas o vento e a sensação de plenitude ou humildade.
Não quero tentar voar hoje, não quero gritar e ouvir minha voz distorcida pelo eco. Quero apenas o silêncio tocante, o silêncio que se corta com faca ou se acaricia com mãos perfumadas.
Esse silêncio 'ventante' que anda me acompanhando.


(Ao som de: I Still Haven't Found What I'm Looking For - U2)
Imagem do site perfeito: www.kkuntze.blogspot.com

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Seu olhar na minha janela


I've been sitting watching life pass from the sidelines
(Estive sentado assistindo a vida passar diante das calçadas)
Been waiting for a dream to seep in through my blinds
(Esperando por um sonho infiltrar-se entre minhas cortinas)
I wondered what might happen if I left this all behind
(E eu imaginei o que poderia acontecer se eu deixasse tudo para trás)

Sabe mãe, a vista daqui é diferente, você perguntaria onde está o verde que eu amo tanto.
Eu carrego ele comigo no meu coração, junto com você e tudo que foi perfeito e eterno daquele nosso mundo.
Sinto muito mãe, eu tentei mesmo ficar, tentei gostar da outra que ele colocou tão facilmente no seu lugar, tentei me adaptar, escolher cuidar dele e do que vocês começaram a construir, não deu.
Talvez eu não seja nada mesmo do que você esperou que eu fosse um dia, como ele mesmo vivia me dizendo. Não vou poder dizer nunca, afinal, nunca consegui saber quais eram os seus sonhos para mim.
Hoje olho para o novo mundo que se abre e eu tenho medo, provavelmente o mesmo medo que tive quando dei os primeiros passos e não senti o toque das suas mãos, quando fui para a escola e você não estava lá comigo, quando dei o primeiro beijo e não tive para quem contar.
Eu cresci mãe, mas o medo que me vêm da sua ausência continua o mesmo.
Ainda assim eu sei que preciso seguir em frente, pelo que você foi e fundamentalmente, pelo que eu quero ser por você, por seu sacrifício em meu nome.
Ontem foi o dia das mães, eu não tenho muitos amigos aqui ainda, acabei de chegar, então me permiti ficar olhando o mundo da minha pequena janela, entendendo que você vai estar comigo onde quer que eu esteja. Em qualquer janela, com qualquer vista, eu vou olhar e vou sempre te enxergar.
Sua foto já está em cima do criado mudo dividindo o espaço com todos os livros, sinto falta de casa, mas sinto uma falta maior de algo distante, sinto a sua falta. Impossível sentir falta de algo com o qual não se teve contato?
É como se eu me lembrasse da única vez em que estive nos seus braços mãe, estranho para todos, mas possível para mim.
E é pela lembrança do seu colo que eu sei que ficarei bem aqui, é pela lembrança dele que eu olho pela janela com segurança, eu sei que o seu colo está onde eu estiver.
Se você olhasse da janela agora mãe, você veria um mundo novo e eu sei que sorriria, espero ser tudo aquilo que você sonhou, se não for, espero apenas que esse colo sempre me acompanhe, e que seus olhos estejam abertos para todas as janelas que eu vier a abrir durante minha vida.
Obrigada por ter me permitido viver, por ter me escolhido e por ter renunciado a si mesma por mim.
Te amo mãe.
Te amei desde sempre.

(Texto para a edição visual de Bloínquês)
(Ao som de: This Time - Jonathan Rhys Meyers - Trilha sonora do Filme 'August Rush')
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