segunda-feira, 30 de maio de 2011

Agora






Ana Terra era daquelas que não fosse muito cuidado teria vindo prematura.
Era uma urgência batendo no tic tac peitoral da menina que afoitismo nenhum descrevia.
Os pais tentaram técnicas apuradas que iam da ginástica aos quebra-cabeças, mas era uma sede. Pressa não, porque pressa era coisa de executivo andando de um lado pro outro, passo ligeiro, pasta na mão.
Era vontade de segurar o fiozinho de algum balão que ela perseguia e não queria deixar subir, nunca nunca.
O terapeuta desenganara e o namorado até se importaria mais, não fosse um charme aquelas mãos dela sempre tão vidas, pulsantes e alegres, alertas.
- Parece sempre que um segundo e pronto, já foi.
E ele olhava aquela menina tão moça e questionava com os olhos para ouvir sempre:
- Não sei, não sei... Já foi.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Da felicidade


Eu sou feliz com o pouco, com o pequeno, o singelo. 
Não me venha com buquês. 
Felicidade é pétala arrancada junto, florzinha miúda na mão.



domingo, 22 de maio de 2011

O que era dentro dela


"Elas estão dentro dos meus olhos
Da minha boca, do meu ombro...
Se quiser ouvir
É fácil perceber"


Era feita de terra e de palavras, muitas palavras.
Mais palavras do que tudo. A essência era essa, como a da menina que roubava livros e transformava a vida de um judeu.
Dentro dela era um rio de palavras, bilhetes formavam montanhas, faziam o coração bombear mais e mais oxigênio, girassol, melancia e pólvora, aquelas preferidas.
E ela tinha uma necessidade delas, cabia explicação médica: era o seu ar, o seu chão, o seu norte.
Coisa feia, tinha gente que não sabia dizer, não conseguia e vez ou outra nem queria, era preciso silêncio.
Mas silêncio morava nela também, silenciosamente ela digeria tudo, lá na fábrica de energia para aquele corpo escrito era tanto silêncio, pra decodificar cada uma, analisar cada termo, suspirar cada sentido bom. Um silêncio Lispectoriano.
Só que as palavras vinham até assim, dos olhos, das mãos, dos braços que buscavam e insistiam por abraços. As palavras vinham em enxurradas e ela ia atrás, tentando limpar as paredes depois da tempestade, tentando plantar novamente o que a água levou, tentando e tateando, porque tantas vezes o que se diz é cego.
Ela era então aquele emaranhado de termos que nem todos sabiam ler, e quando vinha assim alguém com jeito de que decifrava tudo só de olhos, ela dizia vivendo ainda mais, porque era tanta coisa pra mostrar de lá de dentro, tantos mundos e línguas estranhas morando no corpinho. E ficava aquele susto do outro lado, porque a gente nem sempre tem estrutura fonética, sintática, semântica ou psicológica pro que habita dentro do outro, tão diferente da gente.
Então ela mastigava sangue da língua e engolia tudo de lindo que sempre dizia. E pedia internamente pra que calassem um pouco tantas vozes sempre ativas. Era preciso ser passiva um pouquinho só.
Respirava o ar seco porque era inverno e deixava resfriar tudo, formar termos novos, germinar o silêncio que vem depois e antes. O silêncio que não é o contrário das palavras, é apenas o meio delas, o espaço para que elas sejam melhores compreendidas.

(Ao som de: As Palavras - Vanessa da Mata)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Explicação nenhuma isso requer



"Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo
Vai queimar"

Seria uma história bonita se começasse com era uma vez. Mas era a história deles e a beleza não vinha em como se inciavam as frases. Ela vinha de tudo, até dos silêncios.
Quando ele a viu pela primeira vez sentiu que ela tinha aquele ar de quem sabe tanto das coisas e que era preciso dar uma lição, afinal, ninguém sabe tanto das coisas assim.
Não foi amor, foi vontade de provar que ela era mimada e rabugenta. Teimosa e metida a dona razão.
Quando ela sentiu pela primeira vez o toque dele não foi amor, foi desejo de sentir aquele calorzinho medroso que saía dos poros dele. Quem seria ele se ela o deixasse solto, pipa em vendaval de inverno?
Não foi amor, porque não tocaram sinos, o mundo não parou e o ar até voltou aos pulmões depois de alguns minutos.
Mas ela moraria dentro do abraço dele por dias, se coubesse esse tipo de coisa no mundo real. Sendo ou não amor, tendo o nome que quisessem dar.
E ele ficaria abestalhado diante da confirmação de que ela não sabia todas as coisas, mas sabia um bocado suficiente para que ele quisesse sorrir o sorriso dela, viajar no olhar dela.
Não foi amor, não era e vai saber nem seria.
Eles tinham autonomia suficiente para inventar o nome que fosse só deles, esse estava batido por demais já.


(Ao som de: Pra você guardei o amor - Nando Reis lindo e ruivo)

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