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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Capture



Rapte-me camaleoa

Adapte-me ao seu
Ne me quitte pas


Eu a via todos os dias, em silêncios contados e suspiros anti-poéticos e havia algum jeito de não vê-la?
Sentado ali no meu mundo lar de uma calçada ela passava ao meu lado, com seu cheiro entre doce e cítrico e belo, um rastro de flores do campo atrás dela, sempre.
Ela passava vestida de sonho, olhar seguro e aquelas mãos que sempre viviam ainda mais que ela, as mãos que me atiravam uma moeda vez ou outra, sem saber que eu mataria ou morreria por um olhar, sem nada desejar das mãos além do toque.
Eu era invisível para ela, mas eu a sentia tão próxima, enxergava o modo como ela desepenhava sua função de boa moça todos os dias, cumprindo horários sem fazer planos, pela manhã. 
Mas eu jamais imaginaria o poder daqueles olhos marcados pela dúvida em uma noite de chuva. 
Ela passara por mim novamente, alguma coisa havia mudado, talvez fossem as mãos que estavam mais quietas, ou os passos mais firmes e o sorriso mais misterioso ainda.
Vi quando ela voltara, os olhos com o briho molhado, e ela olhara para mim.
Não como das outras vezes, ela me enxergara.
Quando dei por mim as mãos estavam estendidas, as minhas, era tanta vontade de sentir realidade que eu chamaria pelo nome dela, se soubesse. Camaleoa que se camufla e tenta ser parte do mundo de modo discreto, por temer a aproximação alheia.
E naquele mundo de chuva que embaça a alma e o vidro do carro, ela me estendeu a mão.
A mãos vivas que agora estavam ali, nas minhas limpas por milagre chuvoso.
E quando terminou o toque, feito criança eu apertei as mãos por muito tempo, tentando reter a essência dela, ali, para sempre comigo.
E ela se foi, mas voltava sempre, todos os dias, indo e vindo, mas morando em mim. 


(Ao som de: Rapte-me camaleoa - Maria Gadu e Caetano Veloso)

sábado, 24 de julho de 2010

Jéssica


Cheia de graça e de riquezas, bem-aventurada, aquela que é abençoada pelo Senhor. É do hebraico sua força, seu nome.
A alegria nasceu com ela, mas não sendo egoísta ela a transporta para todos através de sorrisos tímidos ou de gargalhadas deliciosas, ela sabe fazer feliz.
Ela tem olhos vagantes que brincam como crianças em férias, olhos que procuram incansavelmente por novidades que os encantem por segundos, para novamente vagar. Olhos que não temem lacrimejar quando o coração quer parar de bater por doer de amar demais, coisa que faz muito bem.
Sua alma leve vai feito pluma que acaba de se desprender voando e descobrindo mundos novos, parando aqui ou ali para apreciar o sabor que o vento traz.
Ela encanta por seu sorriso sincero e aberto, por ir mesmo sem medo, coisa típica de quem é amante do perigo. Pinta o mundo de laranja, distribui abraços voluntários e acaricia sem pensar em arrependimento. Sorri e proporciona àqueles que a amam uma total paz de espírito.
Sonha e de olhos abertos conta histórias divertidas, prazeres e desventuras, amores e amores, porque desconhece o contrário de amar.
Encara e teima, faz valer sua vontade com uma súplica de olhos e cílios. Dança com a tempestade por prazer brinca com o fogo. Mesmo sendo valente e sabendo se defender sozinha, acha maravilhoso poder ser defendida.
Jéssica decifra e se deixa decifrar, decora leis e voluntariamente as quebra, vez por outra.
Ela sabe que o importante não é só saber regras, é saber o momento certo de infligir para ser feliz, sempre feliz, do jeito que só ela sabe ser.


Já conheci algumas Jéssicas na minha vida, já até tive uma gatinha com esse nome, e por mais incrível que possa parecer, quase todas tinham características comuns. Esse texto é um presente para uma nova 'amiga de infância' e também uma forma de agradecer à Jéssica Pereira, do blog 'Surtos Mode On' pelo layout novo. A foto é da Jéssica Leal Eller (a amiga mais feliz que eu conheço) editada pela Julia Guerreiro.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Carolina


Ela tem um jeito esnobe, típico de escorpião, aparenta força nos punhos e anda sempre na contra-mão. Na bolsa leva os sonhos, nos olhos o medo disfarçado por brilho dourado. Seu mundo nunca foi cor de rosa, ilusões vieram e partiram enquanto ela aprendia a ser capaz de falhar e acertar. A solidão não é sua companhia mas jamais a abandona. Não mente pra agradar, silencia e faz o olhar reinar. Alguns dizem que ela é infeliz com seu jeito, ela não pede comentários. Amigos sabem que ali habita um algo insano, felicitam-se por terem algo a compartilhar com ela.
Com frequência ela cala, porque precisa que as palavras recuperem o seu verdadeiro sentido. Com prudência ela ensaia momentos de loucura, permitindo-se ir além de tudo que jamais fora.
Ela chora e sangra, acaricia e às vezes faz sofrer.
O que ela busca não é somente o que pensam ser.
O que ela busca é bem mais.
Fugir sempre do clichê.


(Obrigada aos novos seguidores e aos de sempre! Obrigada aos amigos que comentam, aos desconhecidos, aos que fazem meu coração bater melhor e meu sorriso crescer.)

Estou começando uma nova 'tag' hoje, sobre personagens femininas. São descrições, algumas inspiradas em pessoas reais, outras pura imaginação. Essa é a Carolina, trouxe algumas coisas de uma amiga muito especial e outras de personagens burguesas de filmes antigos.
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