domingo, 25 de outubro de 2009

Amanhã ou Depois

'Sempre estar lá e ver ele voltar...
Não era mais o mesmo
Mas estava em seu lugar!'

E se você ficasse sabendo agora, nesse momento, lendo esse blog, que você vai morrer! É. Você vai morrer daqui a pouco, você é personagem de uma história em que o autor sabe o seu final, só não te matou ainda porque não encontrou a morte mais poética, o fim que dê aquele ar de obra-prima à narração.
E você, com seus planos, sua carreira, seu futuro todo ali, traçado, contado...
Você que sempre esteve tão certo que era capaz, que sempre conseguiu tudo que quis, que sempre soube que precisava contar apenas com você.
O fim, não o que você esperava, mas o que está te esperando.
Seu amor vai ficar, sua vida, as suas contas por pagar.
O filho que você nunca vai ter, o jogo de futebol que você sempre quis ir assistir no estádio, o passeio pra descansar naquelas férias que 'um dia' você ia tirar...
O carro que você batalhou pra comprar, o livro que você ficou de escrever, os amigos que você deixou de fazer porque estava ocupado demais sendo nada mais que você.
Hoje eu vi um filme muito bonito e poético, 'Mais Estranho que a Ficção', me fez chorar e também ver, novamente, que a vida é mesmo 'coisa muito frágil, uma bobagem, uma irrelevância'...
E a gente quase nunca tem tempo para viver.
Encontra tempo pra tudo, menos pra sentir o vento, pra chorar em silêncio aquela dor que aperta o peito faz anos, pra saborear um sorvete novo, pra alugar um filme antigo, pra dizer que ama, mesmo correndo o risco de ser sempre ridículo, pra aprender a tocar guitarra, pra quebrar a primeira regra na vida.
Mas eu vou morrer um dia, ainda que isso não me agrade nem um pouco, ainda que eu não seja lá a melhor amiga dessa ideia.
E eu não preciso ouvir uma voz na minha cabeça me dizendo que meu fim está próximo para parar de contar os passos até o trabalho, os segundos até ir dormir, os momentos vividos no piloto automático.
Eu morri ontem, eu morri mês passado, eu já nasci morrendo.
Verdade que Mario Quintana vivia anunciando...
Como a canção da novela, 'a gente mal nasce, começa a morrer'.
E mesmo assim, a gente ainda espera tomar um tapa na cara da vida, pra gente acordar e ver que ops, passaram vinte anos e o que eu fiz?
Eu não plantei aquela árvore que sempre quis, eu não mandei aquelas cartas que escrevi, eu não disse o te amo porque achei que fosse inconviniente naquele momento, eu não comi porque achei que fosse engordar, eu não chorei porque quis que me achassem forte.
Eu não.
Eu não nada.
Eu passei aqui, mas eu não fiquei.
Mero coadjuvante da própria vida, vivendo em preto e branco no mundo todo colorido, o passarinho dentro do aquário.
E a vida pingando, o tempo deixando sua marca.
Eu não quero morrer hoje, nem amanhã, nem tão cedo. Acho que ninguém quer...
Mas eu também não quero que isso aconteça sem que eu tenha mostrado ao mundo muita coisa, e me mostrado tudo que o mundo pode me dar...
Mesmo assim, se fatalidades acontecerem, e eu espero realmente que não, eu quero que uma parte de mim fique.
Não as contas a pagar, não o carto na empresa, não a carreira que teria sido bem sucedida.
Eu quero que o vento traga a lembrança do meu perfume, que a palavra amigo traga de volta meu olhar, que em todos os abraços dados eu esteja lá.
Porque eu quero ficar em todas as pessoas, não em todos os lugares.
Quanto o meu prazo de validade vencer, eu quero não ter sido o melhor produto da prateleira, mas aquele que você se sente bem em ter, sente orgulho de falar...
O nosso problema é que a gente vive pra ser melhor. E esquece que só existe essa vida, que o segundo, o terceiro, até o último lugar, também tem que ser ocupado por alguém...
Que eu aprenda, com qualquer classificação.
E que ser melhor reflita em uma vida melhor, não em uma posição de destaque.
Que eu não sacrifique aos outros para atingir metas, e nem sacrifique minha vida, meus amores, o meu mundo, para alcançar a felicidade que não chega.
Que a minha vida seja simples, mas que seja vida.
E vida, pra ser vida, precisa mesmo é de essência, de amor, de abraço que não cabe mais de tanta saudades, de lágrimas compartilhadas quase em silêncio, de um olhar cúmplice, de uma palavra desnecessária no momento, mas que vale a pena ser dita...
Vida pra ser vida precisa de sangue, suor e amor.
Precisa pulsar. Precisa de movimento, mas também de calmaria.
Morrer, todos nós vamos uma hora mesmo, inevitável verdade tão odiada.
O que eu quero, é viver pra sempre, dentro dos que me amam...
Deus permita que quando chegar a minha hora, todos tenham conseguido ouvir a canção que meu coração toca...
E que, a cada novo dia, a gente aprenda com a morte que foi a ser novo, estando ali, no mesmo lugar...

(Música: O Astronauta de Mármore - Nenhum de Nós)

Um comentário:

  1. ..."Que a minha vida seja simples, mas que seja vida. E vida, pra ser vida, precisa mesmo é de essência" ... cada vez mais consciente de que "somos um breve pulsar!"! ♥

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Lembre-se que você me faz feliz. Críticas serão sempre aceitas, desde que você use de um mínimo de educação. Eu jamais ofendo ninguém, tente prezar a reciprocidade.
Beijos!

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