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sábado, 24 de março de 2012

De quando foi mais sincero


Era uma vez um mundo em que a palavra 'amor' não existia. Poetas se complicavam para fazer rimas, o vocábulo 'flor' vivia sozinho andando de verso em verso procurando um encontro rico. As pessoas não se amavam, mas elas eram próximas de forma quase mágica pois não havia o medo do 'desamor'. Não haviam promessas em torno de uma palavra dita em vão. Não haviam cartas de amores rasgadas e muito menos amor rasgado. Sem amor outra palavra deixara de ser usada, 'banalização'. Sem amor os outros tocavam as mãos, apertavam os olhos, davam-se aos pedaços inteiros porque quando não se tem o que dizer, começa-se finalmente a amar, a mostrar. A verbalizar algo que não precisa ser palavra pra existir. 

sexta-feira, 23 de março de 2012

Da paz que eu busco agora


"Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver"


Querido,
Fazem tantos anos ou faz tempo que não te escrevo, não sei contar mais nada desde a nossa última palavra que deveria muito ter sido doce. A propósito, não sei mais escrever. Verdade seja dita eu andei até mesmo um tempo não sabendo viver.
Foi você quem apontou o norte e disse que eu deveria ir. Foi você quem rabiscou a rota no ante-braço e me sorriu tão grande e me falou naquele inglês péssimo de secundarista que 'that's over. That's all'.
Posso te contar segredos bobos? Porque não sei mais o que dizer a não ser que a vida aqui foi estranha nos primeiros dias, chovia tudo que brotava dentro da minha tristeza bem guardada no fundo da minha alma. Chovia e eu queria me desmanchar em gripe ou febre ou tudo pra que quem sabe você doesse aí a minha ausência e viesse me buscar, mão na orelha pra dizer que me amava, de forma que só eu, mais ninguém, tivesse direito à verdade pura e límpida da nossa história. Você sempre me amou.
Fiz escolhas. Fiz inglês, peguei carona, conheci gente bonita e interessante e intelectualizada, visitei museus e praias e parques. Subi e desci tantas mil vezes em rodas gigantes metafóricas ou reais que fiquei um pouco confusa em relação ao que é chão e o que é céu.
Anos depois então estou de volta. 
Estou de volta pro meu lugar no mundo que dizem meus pais é o meu país. Iludidos eles são pois nunca me viram nos seus braços, ali, o meu lugar.
Tanta coisa mudou em mim que sei que não me cabe mais pedir abrigo. A língua está mais afiada, hoje digo verdades como quem compra pão porque haja o que houver é sempre melhor ser real. As roupas não ficam mais viajando da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, aprendi a guardar tudo porque não cabe que o mundo veja como as coisas ficam desnudas da gente. Hoje quero ter filhos, quero sorrir pro cachorro do vizinho e jogar pedrinha no lago. Quero descongelar a geladeira e deixar a água inundar a cozinha sem medo de ter que limpar toda a bagunça causada depois. A gente sempre precisa, uma hora ou outra, limpar a bagunça que vem das coisas que descongelam.
Eu quero muito adotar uma criança, quero ensinar idiomas pra ela, quero contar histórias, quero doar sangue regularmente e me alimentar bem. Saltei de um avião, deveria ter te contado antes. Senti tanto medo lá em cima e enquanto todos me olhavam eu só pensava que gostaria tanto que você fosse feito de nuvem pra eu mergulhar dentro de você e me perder no branco céu. Eu estive tão longe amor, tão. Mas você se enraizou de tal forma aqui que foi comigo, teimando sempre, mas foi.
E agora que estou de volta, agora que fui correr o mundo e não sei se aprendi algo que não tenha sido o quanto você é meu, agora que eu estou pronta pra bater na sua porta madrugada caindo e interfone insistindo, agora que eu me tenho por inteira e posso te dar quantas partes minhas forem precisas para tapar todo o buraco de vida que eu sei que você tem. Agora que eu preciso de você mais do que sempre porque eu descobri que faz sentido o nada ou o tudo ao seu lado, por favor dê um passo e venha para a luz do sol.
Dê um passo e deixe que eu te puxe pela mão porque velocidade é algo que corre tão fundo nas minhas veias que não sei andar sem ser aos tropeços. Dê um passo e deixe que eu te faça parar, deixe que eu more no seu abraço, no seu sorriso, na sua casa.
Só venha, por favor. Venha e me diga que a gente agora vai aprender mais do que aprendeu separados nesse tempo bobo, trago festa, sorriso e balão pra você. Trago no bolso os mesmos medos da adolescência, mas trago em mim a marca de quem espera por anos apenas uma coisa: nosso encontro.
Quero ser parte inteira da gente.


(Ao som de Enquanto Ela Não Chegar - Frejat e Come Out Of The Shade - The Perishers)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Do alívio imediato

Amor,
Chove como se fosse possível varrer a terra e plantar novamente tudo de novo, ou é só um desejo forte do meu peito que haja espaço para se olhar com carinho o velho pintado de novo?
Você acabou de sair por aquela porta e eu não sei como consegui me manter presa, talvez eu seja parte da decoração agora, talvez eu seja parte desse apartamento vazio que tanto fiz questão de conquistar, parte dessa liberdade imposta que implica não ter você.
Sei querer, sabe... Eu sempre soube querer, nunca fui o tipo de pessoa que não sabe o que espera da vida, adolescente que era no interior já sabia que uma hora chegaria aqui. Construi com murros em pontas de facas cicatrizes que me afastariam de dores futuras. Eu tinha desistido de ser de outra pessoa fazia tempo, eu tinha colocado no peito a convicção fajuta de que seria melhor inteira, sozinha, focada.
Mas você apareceu e me tirou o chão desde o começo, eu que sempre precisara da certeza de pés firmados, que sepmre tivera pavor de altura. Você veio como um presente de grego da cidade tão nova, como uma preparação para os dilemas que seriam tão meus nos próximos meses.
Lembro agora aquele primeiro olhar na praia, lembro você me dizendo que sabia que eu não era daqui e que sabia também que eu ficaria. Clichêzinho de quem quer conquistar. E logo eu, eu tão sabida das coisas desse mundo, eu tão ciente do futuro brilhante, eu me deixei cair naquele olhar fundo, naquela barba malfeita que em outras ocasiões critiquei tanto. Eu quis pertencer ao mundo porque você estava nele.
Agora você bateu a porta e não bate mais nada dentro de mim, é como se o sangue estivesse desistido de ser bombeado e tivesse resolvido ir brincar com aquelas borboletas idiotas que eu acreditava ser invenção de poetas românticos.
Eu quero você.
Eu quero a ponto de doerem os braços pela falta bruta que consome o corpo. Eu quero olhar para todas as outras mulheres que te enxergam e ter a certeza que nenhuma delas será tão próxima quanto eu. Quero abraçar suas costas e saber que o espaço existente ali é feito sob medida para o descanso do meu pensamento. Eu gostaria tanto que nada disso soasse incoerente como sei que está.
Porque veja bem, eu expulsei você, mas eu quero que você volte. Preciso que você me diga que sou boba e infantil no alto dos meus vinte e poucos, que preciso crescer e que você vai me puxar pelas mãos ou pelas orelhas até que eu entenda que fiz tudo e vim parar onde era preciso, em você.
Volte amor, volte e diga que meu aniversário foi ótimo mas que o presente verdadeiro foi estar após a festa ali, sofás distantes e eu só pensando em quanto seria preciso me aproximar até você ter a audácia de tentar me beijar.
Eu preciso que você me segure os braços, que use a força e os olhos, que me faça mergulhar e que me beije. Eu preciso que você me tire o ar e que me solte no meio do nada pra bater asas, tenho pavor de altura mas é você quem vai me esperar, peito aberto lá em baixo.
Sabe, não sei ser romântica, me sinto tola. Terrivelmente tola por ter impedido o que aconteceu milhares de vezes dentro do meu pensamento. Tantas e tantas vezes fantasiei que você vinha no meio da noite e que roçava a barba no meu pescoço, que me matava de raiva e por fim, por fim sabe, como que me presenteando por ter sido o tempo todo uma menina boa tentando ser má, você me sopraria os olhos, passaria os dedos firmes pela ponta dos meus lábios e me beijaria.
Pareço uma adolescente, eu sei.
Por favor, por favor diga que tentará novamente, que voltará empurrando porta abaixo e me impedido de proferir tolices, diga que sou sua menina e que me fará confissões porque não sei não ser mais que isso agora. Ou não diga nada, só venha.
Quebre os muros, apague as luzes, desligue o mundo.
Engenheiros sussurram ali do som: 'nem caiu a ficha e já caiu a ligação'. Não deixe tocar muito, não me deixe tentar em vão. Não me perca, não me deixe perder nada.
Agora, só por hoje amor, faça com que eu me arrependa de ter sido egoísta e não ter imaginado desde o princípio que você seria o erro mais acertado da minha vida faz-de-conta que é perfeita.
Volte. Venha.

(Ao som de: Arms - Christina Perry)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Do ar que falta


But I'm not too sure
Mas eu não tenho muita certeza
How I'm supposed to feel
Como eu devo me sentir
Or what I'm supposed to say
Ou o que eu devo dizer
But I'm not, not sure
Mas eu não tenho, não tenho certeza


As palavras saem quase sem querer, ouvidos atentos escutam aquele 'eu estava errado, o tempo todo eu estava errado'. As mãos dele passeiam pelos cabelos dela, ela não sabe o que dizer, não consegue compreender como depois de tanto tempo ainda existe alguma coisa ali capaz de reconhecer a digital dele, capaz de fazer o sangue acelerar tão compulsivamente, como se em breve alguma explosão ocorresse ou o mundo apenas se tornasse um lugar seguro, os braços dele estavam de volta.
Não era como ela imaginara, não havia a luz do Sol para dar um ar romântico, não havia a chuva para fazer com que se parecesse cena de filme adorado, onde estava a Lua dos casais? O cenário de repente deixara de ter qualquer influência na história e ela adorava histórias descritivas cheias de detalhes sobre cores e aromas e os lábios dele que vinham, e os olhos. E as mãos.
Onde estava o coração dela nesse instante? Certamente ele saíra, pedira conta da tarefa de bombear todo aquele sangue, não era possível tarefa assim, não para um coração desajeitado e com tendências ao desespero.
As mãos dele ainda brincavam com as mexas recém nascidas próximas à orelha e ela não sabia não dizer não. Não conseguia conceptualizar qualquer frase que fosse, o tempo parecia não passar e de algum lugar vinha um cheiro de folha sendo pisada em quintal, de grama molhada e de tudo que fora lindo e ela apagara na dor de não ser mais.
Ele estava errado. Ela estava certa então? Isso significava que toda a dor era culpa dela, culpa de uma certeza que ela insistira para ter e então valia o que o fato de que ele estava ali agora, ele estava tocando sua pele novamente, ele estava com os olhos vidrados e ela quase conseguia contar os segundos da respiração tão próxima aos ouvidos.
As mãos doíam. As pernas pesavam um oceano inteiro e lá dentro icebergs começavam a degelar.
E então ela fechou os olhos. Precisava do beijo. Precisara antes da certeza, não mais. Coisa mais estranha de se sentir essa vontade alucinada de ter nas mãos um pedaço de raio. Trovejava a alma.
Veio forte, tempo demais esperando para ser acontecido. Ela não conseguia se concentrar para respirar e o ar desistira de sair de seus pulmões. Tudo nela queria ser parte do que estava sendo tão perfeito. Tudo nele era vontade de estar com ela. Tão ela, tão certa, tão de certa forma feita sob medida para ele.
Ele tocava seu rosto, ela respirava humildemente tentando arranjar substituto decente para o coração já na fila do seguro desemprego.
E o beijo terminou.
E os olhos se abriram.
Não fora sonho, não fora medo, não fora. Os tempos verbais passados não seriam mais precisos, o presente estava de volta.


(Ao som de Silverchair - Miss You Love e As Palavras - Vanessa da Mata)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Do que não brilha mas é Sol em mim


Olá Amor,
Às vezes eu queria tanto que houvessem histórias maravilhosas para te contar. Aquelas coisas grandiosas de quando a gente ficava por horas ou minutos ou eternidades sentados rindo de quanto éramos ingênuos. Você ainda tem aquele jeito de espremer os olhos quando sorri? Eu ainda tenho a risada incompleta, aquele momento em que pego ar e nada mais sai. As coisas andam meio tímidas dentro de mim, nunca imaginei que isso aconteceria.
Sinto sua falta, não deveria dizer mais isso, quantas vezes foram necessárias para que eu parasse de reparar nossa foto e eu aqui novamente espalhando a verdade que me fiz calar. Não queria sentir nada, acredita? Mas não sentir implicaria não ter experimentado tanta coisa boa com você, então é mais uma questão incoerente dentro de mim, você não tem ideia de quantas já são.
Quando eu era criança e olhava para o céu lá da roça nos dias de férias e acabava sempre confundindo estrelas e vaga lumes. Coisa besta que só criança sabe fazer. Eu pensei amor, eu juro que pensei que eu tinha aprendido a diferenciar tudo que era celeste. Milhares de vezes eu fiz pedidos para os bichinhos piscantes, nem tudo que reluz é ouro, já dizia o bardo não é? Pois é amor, eu nunca pensei que grande como eu era conseguiria confundir minha estrela. Talvez eu tenha perdido alguma lição importante no caminho de volta pra casa, mas me diz como fui capaz de achar que você era passageiro? Eu vi o quanto você me encantava e no medo insano não quis arriscar, vai ver a luz se apagava fácil.
Bem, cientistas de plantão assumem que nem as estrelas brilham para sempre, mas a verdade é amor que você era muito mais que luz de vaga lume. Eu trocaria todos os desejos realizados por ver você brilhar pra mim outra vez, o seu sorriso de menino bobo, o jeito que eu considerava seus movimentos tentando decorar uma cadência que fizesse sentido. E eu olho para o céu todas as noites, incansáveis noites, ainda que chova. E nada mais brilha.
E sabe, as canções não são mais as mesmas e ainda assim elas me trazem você. O espaço aí é outro e eu ainda queria que você fosse meu a ponto de não conseguir soltar minha mão em dias de frio. Eu ainda te quero tanto que quase dói algum órgão que deveria ser retirado.
Não assumo, faço birra, teimo em vão. É você que eu espero descer as escadas sempre que escuto passos, é seu nome que vibra na mente junto com o celular avisando uma nova mensagem. É só você que eu nunca deveria ter perdido amor.
Quando eu me olho no espelho as perguntas surgem com tanta convicção que eu ainda espero resposta. Espero que alguém me diga que vale a cicatriz fina, espero que meus olhos sejam alegres e sorriam de volta pra mim, eu espero ouvir sussurrado de dentro de mim que a gente vai ter tempo de sobra pra olhar o céu juntos e você, porque é você quem precisa me mostrar o mundo, é você que eu preciso que mostre, você virá e me dirá que estrela brilha muito mais quando está escuro.
Agora está.


(Ao som de Skank - Resposta)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Da realidade


"Se não tivesse exagerado a dose
Podia ter vivido um grande amor"

E quando se olha ao longe não se vê mais. Para ser um bom amor é preciso ter o prazer da espera, coisa que a raposa ensinava ao príncipe loiro.
Madrugadas foram perdidas olhando fixamente para a tela em busca de um movimento seu, um milímetro de diálogo, um sinal de vida além do tempo que não veio.
Então surgiu você e bagunçou a alma, alucinou o pulso e ofereceu o mundo. Era demasiado grande tudo e a confusão foi tanta que sem ar não consegui não ter medo. A vontade de ser para sempre quase ganhou do medo da fugacidade dos nossos sonhos realizados.
A gente teria sido a maior dupla que já existira, faliríamos a banca em Vegas, dormiríamos no capô de um conversível velho e meio enferrujado olhando o sol nascer em Frisco, talvez nos casássemos em um vilarejo indígena e repetíssemos a cerimônia em cada canto de mundo para onde o nosso nariz apontasse.
Eu aprendi a conjugar o subjuntivo com você. E se tivesse dado certo?
E se o tempo não tivesse feito a gente de bobo e a gente tivesse tido a chance de prolongar o primeiro beijo, de pular carnavais juntos? De dormir abraçado durante o pra sempre de uma noite de chuva?
Quem sabe eu tivesse a chance de descobrir se era mesmo amor. Porque veja bem, não é que não tenha sido, eu disse que era na nossa última conversa, lembra?
Foi amor. E foi o amor mais puro que eu jamais poderia imaginar viver. Com você eu quis voar, ser a Wendy que te contaria histórias e a Sininho com quem você pudesse aprontar e rir. Com você eu quis o pra sempre de contos de fadas. E talvez tenha se quebrado por isso.
Chega um dia em que ser criança e esperar o príncipe encantado desencanta.
Não pode ter sido erro nosso, como a gente poderia estragar algo tão lindo?
Foi erro de cálculo que me fez te querer tanto por tanto tempo, e te fez vir me buscar no momento exato após o meu sim à vida. Era preciso virar as costas para algo.
Não há que se pedir perdão, não há sofrimento em mim entende? Talvez nem houvesse essa história de amor de um quase. Mas é que até amores não vividos merecem cerimônias de despedida.
Estou dizendo adeus.
Alimentei por tanto tempo a ideia de que uma hora ou outra você viria e me faria largar tudo e eu um dia me arrependeria mas teria sido bom porque teria sido por você o momento de loucura mais especial da minha vida.
Só que não existe mais isso. Não existe mais espera.
Se você vier às três, quatro ou nunca eu não vou reparar, não estou mais sentada esperando a sua chegada.
Não fique triste, você nunca viria mesmo, sabemos disso.
Existem histórias fadadas ao sucesso e outras fadadas aos sonhos, a gente teve o privilégio de ser do segundo tipo.
Apenas quero que você respire fundo e saiba que te amei sim, te amei por tanto tempo que chegou a hora de tirar da gaiola o passarinho e deixar que ele se alimente de ventos novos.
O ruivo diz que tornar um amor real é expulsá-lo de você para que ele possa ser de alguém. Finalmente nosso amor é de verdade.


Ao som de Kid Abelha - Grand Hotel

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Quando breve, para sempre


This could be the end of everything
Isso poderia ser o final de tudo
So why don't we go
Então porque nós não vamos
Somewher only we know?
Para um lugar que só nós conhecemos?

Aquela era a única lembrança que eu tinha e eu não mais conseguia me afastar dela. Havia um bosque, o seu vestido florido colorindo tudo, eu implicava com o modo como você rodopiava em torno das árvores e me permitia ficar tonto ao constatar tanta beleza junto.
Eu amava você como se fosse capaz afastar todo o resto, as árvores dançavam a nossa canção e uma mesa sempre vazia compartilhava conosco a felicidade sem fim que vivíamos.
E então onde estava você e seu vestido? Onde fora parar a canção? Alguém me puxava pela mão e dizia que estava frio e eu estava de pijamas ainda. Mas como eu poderia me afastar de você? Era verão, em breve choveria e eu sei que você ficava ainda mais encantadora com os cabelos molhados pela tempestuosa e passageira chuva. Como eu poderia me afastar da única sensação de eternidade que me era possível apalpar? Se eu fosse alguém, eu era apenas ali.
A menina vinha, os cabelos eram cacheados nas pontas e  tinha uma cor que me lembrava algo que não sabia o que era. Os olhos eram grandes e vivos e fortes e eu tinha medo de decepcioná-la. Um medo mortal.
Ela se sentava ao meu lado e por alguns momentos apenas olhava as árvores também, ela sorria às vezes, uma dia a peguei chorando e não compreendi como algo tão lindo causaria lágrimas. Mas a menina não dava explicações.
Eu contava para ela a história de como você chegara ali, repetia cada detalhe das flores que brincavam no tecido dançante do seu vestido, eu narrava o amor que nós tínhamos ali, o nosso lugar perfeito. Explicava a ela como era o som do vento, como eu desamarrava os cadarços do sapato sempre lustroso que calçava, como você se jogava ao chão e fingia choros compulsivos quando eu não fazia a sua vontade, para logo depois saltar sorrindo e passar os braços por meu pescoço dizendo que me amava, me amava, me amava.
Nessas horas a menina sempre encostava a cabeça nos meus ombros e eu ficava com a ideia de que talvez você tivesse voltado, mas para onde você tinha ido? E ela também me abraçava, mas concentrava-se mais em me apertar bem firme as mãos, quase doía seu aperto. Minhas mãos não eram mais as mesmas e isso me deixava triste, a menina então dizia que me amava, e o eco da sua voz vinha: você me amava...
Fingindo distração com um graveto, ela começava a me contar uma história, alguns personagens pareciam tão reais. Havia um homem completamente apaixonado por uma garota (todas as histórias eram assim?), havia um bosque verde com o nosso e eles foram muito felizes naquele lugar. Tão felizes que seria impossível esquecer tudo aquilo.
E a menina dizia que a mulher de vestido florido casara-se com o moço dos sapatos lustrosos, e fora uma cerimônia maravilhosa, talvez eu fosse bom em imaginar casamentos porque o modo como ela descrevia as coisas faziam com que eu quase conseguisse enxergá-las.
Nessa hora a menina sempre começava a chorar e sem dar explicações ela me apertava as mãos e balbuciava que o casal tinha sido feliz para sempre. E que o para sempre deles para muitas pessoas seria entendido com muito pouco, mas para os dois seria eterno. Como o bosque e a lembrança daquela mulher linda dançando por ali.
Ela havia morrido enquanto ele fora servir na guerra. Complicações de um coração que ficara para trás faltando um pedaço. Tinham uma filha que esperava todos os dias até que o pai chegara e eles tentaram como foi possível seguir em frente.
Agora nada mais importava porque ele estava novamente naquele bosque, ele tinha novamente a mulher que sorria e dançava. Para ele apenas, mas que diferença isso faria?
Ela era a neta daquela mulher e essa era a hora em que ela me chamava para entrar, ela me abraçava e prometia me contar muitas histórias, mas dizia que ali estava frio demais, que eu não poderia me arriscar assim.
Eu sabia que ela me amava, eu reconhecia o amor. Mas não havia como explicar para mais ninguém que ali eu não estava me arriscando. Ali eu estava vivo.
Não era uma espera. Não era tristeza.
Eu apenas vivia quando estava ali.


(Ao som de: Somewhere only we know - Keane)
Texto para o Projeto Bloínquês.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Do tempo do amor




Não faz mal se quando eu estiver insegura você me apertar a bochecha e acabar fazendo com que eu me sinta ainda mais infantil.
Não faz mal se quando eu não souber o que dizer, ou até quando souber, você completar por mim.
Não faz mal você me amar como se fosse vir a chuva e aquela árvore ainda fosse miúda pra tanta água bruta.
Faz só se você não vier, se não disser ou se não zelar.
Quer saber meu bem, faz só se você não quiser.
É sempre muito cedo quando a gente tem medo de amar.


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Meu Herói inventado


Mas te vejo e sinto o brilho desse olhar
Que me acalma, me traz força para encarar
Tudo

Sabe, antes eu tinha medo de você virar as costas e se deparar com a imensidão do mundo longe de mim. Hoje quando você vira as costas eu penso que quando voltar terá os olhos mais brilhantes.
Houve um tempo em que havia medo. Hoje o amor é tão grande que acredito não caber mais nada, ficam lá espremidos e dançando de mãos dadas sorrindo todos os sentimentos lindos que você me causa. É a certeza do que é nosso, é a beleza que você tem, é a amizade que é essência em você e o amor, o amor com que você aperta minha mão, com que me pega no colo, com que me dá um beijo na testa e me permite cochilar no seu abraço.
E a menina que eu era cheia de imaginação e que tinha o dedo torto para ela e o jeito certo de juntar os outros não conseguiria nunca visualizar a felicidade boa que viria do nosso encontro, dezesseis anos ali, cheios de vida e medo e sonhos.
A gente constrói juntos o nosso caminho e o mundo inteiro olha e diz que somos estranhos, mas nosso amor é real de tal forma que vai de encanto em encanto construindo história.
Nunca é tão bom ser feliz quanto é com você. Entende?
Tem o espaço para todas as coisas, tem as pessoas e tem você. Porque você é tanto e tudo que eu não sei dizer direito.
Era você quem estava comigo quando eu pulei o telhado e quebrei o pé, era o seu sorriso que me fazia ficar sóbria enquanto o caos vinha e se instalava, era o seu cheiro de trás da orelha que me fazia adormecer e ter bons sonhos. É você.
Não sei o nome das coisas e se nem Guimarães conseguia descobrir, me permito só olhar para você e usar aquele clichê velho de que você é minha melhor metade.
O meu sonho verdade, o meu.
Não é só ser namorado.
Não importa o que aconteça, você vai ser meu par.

(Ao som de: Dia Especial - Pouca Vogal)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dos que me assistem - Enrolados


'Nunca pensei que eu pudesse te ouvir dizendo um adeus pro teu sonho que estava por vir'

Sou fã de animações. Então 'Enrolados', a animação de número 50 dos estúdios Disney, assistida essa semana criou em mim uma certa expectativa. Explico, conheço desde sempre a história da Rapunzel, já assisti aquele filminho da Barbie, já li muitas historinhas quando criança e realmente nunca consegui compreender a lenda. Quando o filme começou e fui  apresentada a pequena princesa loirinha de olhos grandes e verdes me apaixonei, mostrar criança acaba comigo.
O filme começa e confirma todas as expectativas, fico feliz em saber que a Disney tem consciência de que as crianças de hoje (e aqueles que não são tão crianças assim) desenvolveram seus gostos e não se contentam mais com princesas inocentes e mocinhos perfeitos. O amor impossível saiu de moda, até nos contos de fadas.
Enrolados me fez pensar sobre os sonhos, aliás acredito ser esse o chavão do filme, a moral. Todo mundo tem um sonho, do mais bruto ao mais culto, da menina trancada na torre que sonha em ver de perto as lanternas flutuantes ao ladrãozinho de meia tigela encrenqueiro que cresceu em um orfanato. Mas não é só ter um sonho. É saber a hora de abrir mão dele.
O casal me encantou por sua história de amor (eu sou apaixonada por histórias de amor), não porque ela vence a mamãe Gothel, ele acaba se tornando aliado do cavalo que o perseguia, a história me cativou porque ao estarem juntos eles descobrem que os sonhos mudaram.
Pouca gente tem essa consciência de coletividade de que quando encontramos um amor um sonho individual perde um pouco a graça, é muito mais gostoso sonhar junto.
Quando o filme termina a gente fica com a sensação gostosa de que amores reais são maravilhosos por isso, justamente por isso, porque eles não são sonhos de consumo, mas ele transformam os nossos sonhos. Ter um amor é isso, transformar o seu sonho.

Ficha técnica e dados essenciais:
Nome: Enrolados (Tangled) - 2010
Estrelando: Mandy Moore (fazendo Rapunzel na versão original e soltando o gogó) e Luciano Hulk (o Flynn Rider ou melhor, José Barbosa, na versão dublada).
Gênero: Animação
Classificação: 4 estrelas (ainda que tenha canções bonitas, elas me cansam)
Assista com: irmãos mais novos, namorado, pais, amigos. Assista com quem estiver disposto a se divertir!
Preste atenção em: Alguns personagens são muito engraçados, as variações de humor de mamãe Goethel são uma história à parte. Animaizinhos fofos também fazem o riso rolar, Pascal o camaleão bom de briga que eu queria ter e Maximus, o cavalo com vocação canina.

Bom filme!




sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Do truque do desejo


É que você chega e de repente não há mais chão.
E é que você, só você, me faz não querer mais dizer 'não'.


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Da resposta



Eu não acredito que as coisas simplesmente aconteçam, mas eu tenho que admitir que de uma hora para a outra eu queria que elas acontecessem sempre ao seu lado. Eu não acredito na sorte e por mais absurdo que possa soar aos seus ouvidos desatentos, eu ando perdendo todos os jogos e não me importando, mesmo sendo a competitividade em pessoa, eu tive muita sorte em encontrar você. Eu tive muita sorte em teimar e você insistir. Eu tive muita sorte em ouvir da sua boca o meu nome bem próximo ao meu ouvido e sentir estalar qualquer coisa em algum lugar, porque seria banal dizer que meu coração se abriu pelo som da sua voz.
Não foi por ela, não só por ela.
Eu queria acreditar no amor de conto de fadas quando era menina e talvez por isso eu não queira mais crer naquela coisa surreal de olhar alguém e desejar tocar a mão daquela pessoa, talvez por achar que é coisa que criança acredita eu não quero acreditar que desenhar bem pequenininho nossas iniciais no cantinho do caderno seja uma coisa normal a se fazer.
Eu não acredito em amor assim, mas a resposta está escrita em meus olhos, eles não sabem mentir.
Não sei que coisa mais incoerente se abateu sobre minha vida e eu me pego pensando em você na hora do almoço, garfo catando batatinhas fritas?
Que aberração tomou posse do meu coração que minhas mãos sorriem quando pego o celular e vejo que é seu número que está me ligando?
Que tipo de pessoa sentimental eu me tornei por sua causa?
Ou não foi por sua causa, foi por minha culpa que desacreditei tanto que alguém quis provar que era capaz que me apaixonasse uma hora ou outra, perdesse o ar e quisesse buscá-lo no peito de outra pessoa. Eu que via comédias românticas e achava que estava imune ao vírus mortal de suspiros quase poéticos...
E você se questiona do que eu sinto? Você não sabe a bagunça que está dentro de mim porque uns insistem em dizer que te querem tanto e eu teimo que é comum, normal, querer alguém assim. A sanidade foi morar na Floresta Amazônica e plantar árvores para reflorestar o Planeta, cansou da confusão que tem aqui dentro.
E sabe o pior, nem ficou buraco da falta dela. Algo anda crescendo bastante aqui, acho que é seu pedacinho piegas enraizando.
Deveria ter medo, mas você sorri de um jeito tão confortável, faz parecer tudo tão simples, faz parecerem bobas todas minhas listas de prós e contras. Você faz com que pareça forte e perece meu coração cimentado por tolice de menina ingênua que acreditava mesmo que paixão não vinha sem avisar.
Você bateu né? Bateu na porta e foi entrando, meio esbaforido você. Mas não posso negar que algum som você deu, eu é que estava tão ocupada fechando as janelas que quando notei lá estava você, sofá seu íntimo, controle na mão e copos em cima dos livros da mesinha, mostrando já o desalinho que seria.
Sujeito folgado.
E o pior, ou melhor, já que ser coerente deixou de ser necessário, é que não quero te expulsar. Não quero nem tirar os olhos da sua figura marcando presença por onde passa de modo mais desajeitado impossível.
Eu descobri que não fazer sentido é ter sentido algo.

(Texto para a Edição Musical do Projeto Bloínquês)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Do que é mar mas queria ser porto


'Só ao amor pode juntar
O que o desejo separou
Não poderia ontem
Se vestir de amanhã?'

Vinte e poucos anos e aquela dificuldade imensa de compreender coisas tão simples. Ela o queria a ponto de doerem as pontas dos dedos. Ele nada mais desejava que tocar o espaço pequeno da nuca pertinho de onde nasciam os primeiros fios loiros dela.
E agora estavam se casando ali naquele cais improvisado que representava o que cada um era para o outro, lugar de espera. Um casamento sem juiz, tendo por testemunha aquele mar que ficaria entre eles, ele na Europa realizando o sonho de um doutorado precoce. Ela aqui hibernando os desejos de estar ao lado dele o tempo todo.
O vestido branco foi minuciosamente escolhido, o buquê comprado em uma loja de flores vinte e quatro horas, a calça social dele fora emprestada por um primo gordinho e insistia em cair.
Mas eles se amavam com um amor tão bom de viver, que ousadia do destino cobrar esse tipo de decisão deles! Porque assim, tudo de uma vez?
Não haveria bolo, não haveriam madrinhas para disputarem as flores jogadas pro alto, não haveria um álbum que registrasse a família toda bem vestida e as lágrimas dos dois.
Mas haviam lágrimas pesadas e uma dor sufocante no peito dela, algo dizia que ficar seria tão terrível quanto partir.
Quando o sol começou a se pôr e ela entendeu que na próxima manhã ele não estaria ali quis jogar alguma âncora ou coisa parecida, mas sabia impossível.
Ele começou os votos:
- Eu, tão bobo e metido a dono da razão, não só aceito como espero do fundo de algum lugar que talvez eu nem soubesse que existisse aqui dentro, me casar com você. Eu digo sim e grito, corto o dedo e faço pacto se for preciso. Eu te amo e quero que você seja minha esposa, o porto que vai me receber quando eu retornar.
Engolindo o choro ela ainda sussurrou:
- E eu, tão cheia de medos, prometo que tudo que me bastará por esse tempo será o seu sobrenome, a sua aliança invisível feita de tudo que é real brilhando no meu dedo...
O Sol quando se cansou de enfeitar a cena foi embora de prova do casamento marcado e consumado num píer maltrapilho que poderia ter sido a igreja mais linda de todas não teria abençoado mais um amor tão único.

(Ao som de: Por Um Triz - Skank)




segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Do dono do All Star


'You came around and you knocked me off the ground from the start'


Você veio para me ensinar cores, com aquele seu all star verde.
Veio para fazer com que eu me sentisse menos louco a tivesse um pouco mais de fé na raça humana. 
Eu me lembro de como ficávamos horas falando sobre filmes e músicas que eu nunca tinha visto ou escutado, mas que você me fazia querer conhecer por ter um jeito tão seu de falar delas...
Às vezes eu tento encontrar um momento em que ficamos assim, tão íntimos, mas não há. Acho que desde o primeiro dia foi tanta cumplicidade de sonhos que a gente pulou etapas, a gente bem gosta de pular mesmo.
Quando eu percebi éramos irmãos, você tinha o dom de transformar em quase real todas as palavras que eu sonhava, que eu dizia, e por vezes e vezes conversamos sobre casamentos que seriam perfeitos!
Ah meu menino, você tem o dom de me surpreender, de me deixar sem ter o que dizer porque você vem e briga comigo porque eu solto o abraço primeiro, você me exige atenção mesmo eu estando ultra ocupada, você me faz ficar com muita raiva e dois segundos depois eu já te amo com aquele amor de irmã mesmo sabe?
Queria te dizer que eu não estarei aqui pra sempre, coisa clichê isso. Eu estarei com você, não aqui. E você vai ser sempre o menino com quem eu ria do que as pessoas grandes diziam e faziam, aquele menino que saia da escola meio dia e ficava aqui em casa até sua mãe enlouquecer constando que já eram cinco da tarde e você ainda não tinha ido almoçar.
Com você eu passava tardes inteiras sonhando... Nem sei mais se eu consigo fazer isso novamente, porque uma hora ou outra a gente vai se tornando grande também.
Mas o trigo vai sempre me trazer você, o meu Pequeno Príncipe, o meu Petter Pan que nunca vai ser adulto, que eternizou a infância nesses olhos verdes.
Queria te fazer chorar como você me fez e sempre faz com suas cartas, mas eu não sou mais tão boa nisso. 
Queria te fazer sorrir olhando pessoalmente pra você e te dizendo coisas absurdas e incontáveis, queria te abraçar e deixar você soltar o abraço, apertar muito e dizer que você tem um perfume que fascina. Você tem cheiro de sonho meu Pequeno.
Acho que no fundo no fundo eu te descobri em sonho porque é isso que você é e sempre foi, um momento bom que me vinha quando eu fechava os olhos. Ou melhor, que me vinha quando eu abria os olhos, abria pra valer.
Obrigada por tudo que você é pra mim, por todos os milhares de galhos que você já me quebrou e até por ser um chato que me cobra, é um jeito de estar sempre presente.
Eu amo você.
Mesmo, muito.

(Ao som de: Christina Perri - Arms)

sábado, 27 de agosto de 2011

Do que os anos trazem


'Stand by Me
Me apoie
Nobody knows the way it's gonna be
Ninguém sabe de que jeito será'

Era uma vez um espinho daqueles teimosos, venenosos. Não havia modo de se livrar dele porque quanto mais se apertava para expulsar, mais veneno ele derramava e a cicatriz nunca se fechava.
E ainda naquela vez, era uma menina já de saco cheio de espinhos insistentes e com um gênio terrível. Uma menina que de pequena aprendera que às vezes para se livrar de algo era preciso não só abrir a ferida, mas compartilhar a dor na esperança e expectativa de que olhado por outro ângulo houvesse a surpresa de constatar que a ferida secara.
Surgia assim um lugar encantado pra ela, uma espécie de jardim secreto particular e ao mesmo tempo, público! É, esqueci de avisar mas a menina era um tanto confusa com definições, ela gostava de figuras de linguagens e brincava com paradoxos.
Dois anos já fazem que ela sempre que sorri, que chora ou que deseja estacionar os dedos compulsivamente em cima do teclado, sempre que ela sente o brilho de olhos que vem de outro que tem a chave do seu portal, ou que escuta meio segredado acompanhado de um sorriso lindo algo do tipo: 'eu bem leio seu blog', sempre que pode ela passa por lá!
E a tal menina hoje nem lembra mais do lugar do espinho de tempos atrás, já se arranhou de novo, por motivos mesmos ou diversos, a gente nunca está livre de espetar os dedos.
Só que sempre que um novo machucado vinha ela corria para o seu espaço no mundo e chorando dizia tudo e vez ou outra encontrava alguém por lá que compartilhava, que compreendia, lia entrelinhas das suas palavras e tornava tudo mais colorido, mais belo, mais com cara de conto-de-fadas ou história de Príncipes loiros perdidos em desertos.
Ela queria dizer que cresceu nesses dois anos, mas a estatura é a mesma por fora, algumas pessoas não entenderiam. E ela teria que dizer repetindo um poeta português que é do tamanho do que vê, não do tamanho da altura que tem.
Um dia ela viu um cantinho perdido, deu nome a ele, decorou, e então ela se tornou grande.
Porque naquele mundo que era tão dela ela se permitiu ser outras, não repetindo padrões, mas descobrindo novos modos de ser dia-a-dia única. Apenas ela.
Dois anos se vão de 'compartilhos', de posts e alma.
Espera ela que ainda muitos venham pois o jardim tem espaço pra vida inteira, tem terreno fértil e um balanço pra cada um que quiser se achegar.
O jardim é maior que o mundo.
Porque ele é do tamanho do sonho da dona dele, a menina que por achar sofrido ser piegas acabou descobrindo que sensibilidade é a matéria-prima dos sonhos.
E os sonhos são lindos, sempre são quando sonhados juntos.


Feliz Aniversário Sucrilhos e Neuroses!


(Agradecimentos muito especiais vão a todos que passam por aqui diariamente, seguidores ou não, que comentam ou que apenas apreciam os textos. Aos amigos Cris, Felipe Eller e Nicole, obrigada por estarem aqui desde o princípio! Ao Andrey e à Ana Fontenelle, obrigada pela irmandade descoberta através do blog! Aos ex-colegas de trabalho da Equipe Bloínquês, dividir meu tempo com vocês durante aquele período me fez muito bem, obrigada! E lógico, à Carol que tantas vezes foi tema de textos, que sempre me apoiou, me empurrou pra frente e ainda fez o favor de apresentar o blog pra alguém que se tornou especial por apreciar meu jardim. Obrigada a todos vocês por construírem esse espaço comigo nos últimos dois anos!)



domingo, 21 de agosto de 2011

Do real encatado


"Nem mesmo o amor é uma garantia
de que eles não vão se magoar.
No máximo é uma probabilidade"

Relacionamentos dão trabalho. Conforme-se.
Você pode passar a vida toda esperando por aquele carinha que vai tirar seus pés do chão no olhar, e contrariando a realidade, ele pode sim aparecer numa esquina qualquer e arrancar em um sorriso só todo o ar do seu corpo. Mas isso não é e nunca será a garantia de que vocês são um casal fadado ao sucesso.
Veja bem, não existe casal fadado ao sucesso.
Não tem química, paixão, amor ou jogo de cintura que vá garantir que em um dia ruim ele não te dirá coisas que ficarão por semanas vagando e assombrando bons pensamentos. Não tem fórmula secreta, passe de mágica ou toque do destino, estar ao lado de alguém é correr todos os riscos, apostar na bolsa de valores sem entender nada de economia.
Porque não tem experiência que possa ser comparada, relacionamento antigo ou futuro que possa analisar pra se entender as coisas atuais, ninguém é igual e nenhum momento é parecido, fosse assim seria simples, apenas olhar pro vizinho e ver os erros que ele comete.
Mas você vai errar também, vai magoar também, vai chorar também. Vai ver é o que faz o amor ser tão apreciado por todo o mundo, tão desejado, ele é o que nos torna únicos nesse Planeta.
Vocês nunca serão o casal perfeito, ele é rabugento, você é dona da razão e isso é maravilhoso. Perfeição não está na moda faz bons tempos já.
Queira apenas ser real, já é um grande passo. Não queira que seja forte, intenso, de arrepiar. Se for pra desejar alguma coisa de um relacionamento, do amor, deseje que valha.
Não existe felizes para sempre.
Mas dá pra viver feliz dia-a-dia.
O resto é pedir demais.


(A imagem e a citação são do filme 'Terapia do Amor', postarei em breve o que eu achei dele)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dentro dos meus olhos


I hope you don't mind
Eu espero que não se importe
That I put down in words
Por eu ter colocado em palavras
How wonderful life is
Como a vida é maravilhosa
Now you're in ther world
Agora que você está no mundo

Sim, já estamos juntos há bastante tempo e já te dei mais de mil motivos pra tudo que sinto. Mas agora eu vou dizer porque te acho o homem mais interessante do mundo:
Primeiro porque você tem os olhos de um brilho bom de olhar sabe, tem um jeito de criança esse seu olhar, algo que me diz pra ficar calma, pra não desistir, pra querer fazê-los brilhar, sempre mais. Além do mais você tem essa coisa de olhar as pessoas de frente, de procurar os olhos alheios que no começo tanto me encabulava e hoje me faz falta quando eu me afasto de você por uma semana.
Depois porque você tem o abraço mais protetor do Universo inteiro, porque você tem o cheiro de conforto que amaciante nenhum é capaz de produzir e você sabe exatamente o momento de me puxar no meio de uma briga que eu insisto em ter, e me enfiando ali no espaço que parece delimitado pra mim você me cala com carinho, me faz entender que sou idiota por questionar algo tão forte e real. Tão nosso.
Ainda tem o seu toque, as suas mãos que tenho pra mim são de algum material raríssimo que só se esfriam em casos extremíssimos. Elas são quentes, grandes e do jeito que eu desenhava quando criança envolvem toda a minimeza das minhas sem fazer esforço algum. São mãos que moldam sonhos e eu preciso delas pra construir as histórias que escrevo.
Tem também o jeito como você me beija, como faz hora com minha cara e finge me esnobar pra me matar de rir depois. O jeitinho como quase fecha totalmente os olhos quando sorri e mesmo assim enxerga tanto. Ah, preciso falar sobre isso, tem o jeito como você me enxerga, como decifra cada cara e distingue cada birra, pirraça ou tpm. Eu sou um livro aberto só de figuras aos seus olhos.
Tem suas manias de me explicar sobre mecânica, zoologia ou planetas desconhecidos, a maneira como para o mundo pra descrever minuciosamente cada detalhezinho que pode ser imprescindível ao meu entendimento, a sua insistência para que eu cante e a forma como vira um pouco a cabeça, tombando o pescoço pro ouvido ficar mais exposto aos meus ruídos que timidamente se intitulam notas em canções.
Tem a admiração que eu vejo nos seus atos e que me faz querer ser grande, do tamanho necessário pra realização de todos os nossos sonhos, aquela fé que você tem em mim, o modo como faz propaganda de textos que nunca lê e diz e garante que eu sou melhor que Clarice e mesmo quando eu teimo você afirma com a certeza de quem domina toda a literatura universal.
E o jeito como você dorme no meu colo quando está muito cansado e isso me deixa irritada por desejar passar o tempo com você e você ali, tão entregue, tão íntimo, tão meu.
Também aquela certeza boa de que mesmo eu quase sempre sendo confusa, não tendo certeza de quase nada, isso não assusta você, faz você me abraçar mais forte e dizer que estamos aí, estaremos sempre.
E sabe o melhor? Eu adoro o jeito como você cuida de mim, como apaga as luzes quando estou com dor de cabeça, como reduz o volume quando estou com dor de alma, como me pede pra ter cautela com meus sentimentos e me empurra pra frente, me segura quando acredito que estou caindo e quando não aguento e perco o chão você joga uma corda enfeitada e me tira do fundo.
São setenta e cinco meses e a cada dia mais quero construir com você mais posts assim, carregados de uma pieguice boba mas real, cheios de uma coisa que muita gente acredita já ter visto na tevê ou em filmes, mas que eu sei que a gente só vê olhando nos olhos. Eu quero escrever nossa história.
Sempre.


(Ao som de: Moulin Rouge - Your Song)


O texto que ficou na minha cabeça durante uma semana me pedindo pra escrever esse foi encontrado no blog Caixa Preta, esse não segue muito o modelo, mas vale lembrar o blog da Luciana Brito!
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